quarta-feira, 19 de março de 2008

Crítica à Declaração Universal de Bem-Estar dos Animais


Já há mais de um ano tem circulado na internet pedidos de apoio à Declaração Universal de Bem-Estar dos Animais - ainda em fase de rascunho, podendo ser alterada sem aviso prévio aos signatários. Quero crer que a adesão em massa de vegetarianos a essa Declaração se deva à ingenuidade, mais que à concordância. Muitos vêem a frase "Para mim os Animais Importam" que geralmente acompanha a divulgação do documento, e podem se deixar enganar. Outros não estão ainda familiarizados com os debates sobre as questões animais - os mais escolados sabem que "Bem-Estar", um termo que parece encerrar coisas boas, na verdade carrega implícita a idéia de que não é a liberdade que conta, mas apenas o conforto. Animais em jaulas confortáveis esperando a inevitável violação de sua integridade física e/ou psíquica, uma vez já violado seu direito básico à liberdade.

Outro engano possível é supor que o bem-estarismo, a redução do sofrimento, é uma fase necessária no processo de libertação animal. Na verdade, enquanto lutarmos pelo bem-estar, por definição, não estaremos lutando pela libertação. Não se pode chancelar e condenar a exploração ao mesmo tempo. E o bem-estarismo nitidamente chancela a exploração, constatação que aflora límpida da análise desse documento.

Quero, então, fornecer elementos à crítica e, portanto, repúdio completo à Declaração Universal de Bem-Estar dos Animais, promovida pela World Society for the Protection of Animals (WSPA, Sociedade Mundial de Proteção Animal), uma entidade assumidamente bem-estarista, de raízes anglo-americanas, surgida em 1981.

A Declaração não se dispõe a condenar qualquer das formas de exploração animal listadas - sem dúvida as mais disseminadas em todo o mundo. Inclusive aquela que é, possivelmente, a mais bárbara de todas: a vivissecção. Ela tão somente pede que a exploração seja feita observando critérios (nem mesmo limites: apenas critérios de bem-estar). Destaco alguns trechos que tornam indiscutível o respaldo que ela dá à exploração animal:

RECONHECER que a utilização de animais por parte dos humanos pode reverter em benefícios importantes

Ninguém pode afirmar que a escravidão é justa quando rende benefícios ao escravista. O que importa é que a escravidão rende inequívocos malefícios ao escravo.

RECONHECER que (...) os vegetarianos desempenham um papel importante na conservação quer da saúde, quer do bem-estar animal

Este trecho disfarça, sob o manto da suposta exaltação, uma minimização da importância do vegetarianismo. O veganismo – que é o vegetarianismo estrito (sem nenhum alimento de origem animal) somado ao boicote de outros produtos resultantes da exploração animal – é a base inegociável de uma atitude de coerência e respeito em relação aos animais. Enquanto houver seres humanos que se alimentem dos animais e suas secreções, não é possível preservar a saúde e o bem-estar dos mesmos, menos ainda a sua liberdade. Assim, o vegetarianismo e mesmo o veganismo são meros paliativos enquanto ainda houver exploradores. E mesmo o veganismo só terá efeito sobre a vida dos animais quando for adotado por toda a humanidade, ou por uma maioria capaz de levar adiante a abolição da exploração animal.

RETER que as "cinco liberdades (livre de fome, de sede e de má nutrição; livre de medo e de perigo; livre de desconforto físico e térmico; livre de dor, ferimento e doença; e liberdade para expressar padrões normais de comportamento)" e as "três medidas (redução do número de animais, aperfeiçoamento dos métodos experimentais e substituição dos animais nas técnicas utilizadas)" facultam uma orientação valiosa para a utilização de animais

Ora, todas essas liberdades são diretamente atacadas, de modo evidente, pela pecuária, pelo abate de animais para alimentação e pela vivissecção - além das outras formas de escravidão. É muito fácil demonstrar que mesmo que as cinco liberdades sejam respeitadas ao longo da vida do animal - o que é altamente improvável -, elas serão imediatamente e irrevogavelmente violadas no momento do abate ou da vivissecção. Logo, a Declaração é incoerente, se não hipócrita. As três medidas, ou 3 Rs (dos termos no inglês, "reduction", "refinement", "replacement"), por sua vez, existem já há quase 50 anos - foram formuladas em 1959, na Grã-Bretanha. De lá para cá o número de animais empregados em laboratório apenas aumenta, o que mostra a total falência do paradigma bem-estarista e sua incapacidade de atingir os próprios objetivos reformistas. Mais que isso, demonstra que o reformismo apenas existe para aprimorar a exploração animal. Por fim, o trecho "orientação valiosa para a utilização de animais" não deixa dúvidas. A Declaração afirma que com regulamentação e observando-se certas premissas, a exploração animal é aceitável, e esse pensamento nunca levará ao fim da exploração e, longe de proteger os animais, chancela, em última instância, os maus-tratos e a crueldade que são intrínsecos a atividades como a pecuária e a vivissecção. É, portanto, uma Declaração que sofre de má-formação congênita pois torna os animais vulneráveis no mesmo momento em que os pretende proteger.

3. Os [estados] devem empreender todas as medidas adequadas para evitar a crueldade para com os animais e para reduzir o seu sofrimento

Se o sofrimento requer redução, está implícito o reconhecimento de que ele será, em algum momento, promovido. Em contraste com esta Declaração bem-estarista, uma Declaração abolicionista assumiria o compromisso não de reduzir, mas de abster-se de promover qualquer tipo de sofrimento deliberado e desnecessário ao animal não-humano, só sendo legítimo causar algum dano quando para protegê-lo de um sofrimento maior, e não para atender a interesses alheios.

4. As normas adequadas para o bem-estar dos animais devem continuar a ser desenvolvidas e elaboradas, tais como, mas não só, as que dizem respeito à utilização e gestão de animais de quinta, animais de companhia, animais utilizados em pesquisas científicas, animais de carga, animais selvagens e animais para fins recreativos.

Aqui fica claro que não há qualquer condenação de nenhum tipo, nenhuma crítica fundamental, de base, à exploração animal como um todo ou a alguma modalidade de exploração animal em particular.

Em conclusão, pode-se dizer que esta Declaração não atende a nenhum interesse fundamental dos animais não-humanos, mas tão somente ao interesse egoísta do ser humano em continuar explorando-os, promovendo um suposto bem-estar, para apaziguar suas consciências, torná-la mais aceitável frente a toda a sociedade, e não colocar jamais em risco os benefícios - em geral econômicos e políticos - advindos da mesma. Assim sendo, é uma vergonha que os vegetarianos que se declaram defensores dos animais apóiem tal farsa. Ela deve ser denunciada, e o esforço para fazê-lo deve ser empregado para ensejar um debate amplo na promoção não do bem-estar, mas da LIBERTAÇÃO ANIMAL.

Neste link há uma versão expandida deste texto, analisando outros trechos da Declaração e estendendo algumas considerações dos trechos acima destacados:

http://www.sentiens.net/top/PA_TRI_brunomuller_09_top.html

13 comentários:

chel disse...

muito bom o texto! vou repassá-lo prum bando de filho da puta que tá assinando e defendendo essa merda, no orkut...

Anônimo disse...

Será NECESSARIAMENTE repassado.

Bruno Müller disse...

Obrigado, pessoal. Divulguem mesmo. Vou também publicar no Sentiens, onde ele terá maior visibilidade.

Miluciana disse...

Oi Bruno perfeito peço permissão para divulgar via e-mail também.
Sou aquela que fora expulsa da comunidade "Vegetarianos", por postar essa minha opinião contrária lembra?!

Bem estar de quem????
(http://www.orkut.com/Community.aspx?cmm=38384179)
Não ao animal "Animals Matter",abaixo ao bem-estarismo!!!

Bruno Müller disse...

Oi, Mi.

Sim, sim, pode divulgar à vontade. ;)

RONALDO disse...

CLAP, CLAP, CLAP, CLAP...
FAZ TEMPO QUE NÃO LEIO UM TEXTO TÃO BOM E TÃO EMBASADO NA SOBRIEDADE E REALIDADE QUE ESTÁ POR TRÁS DO EMBUSTE DESSES ENGANADORES...
VALEU, MESMO BRO!

Cigano

flavioadf disse...

Parabéns. Está muito clara, concisa e lógica. Admirável.
Temos que aproveitar este momento para enfatizar nossos objetivos abolicionistas.
Usar essa tentativa de enfraquecimento do movimento para uma afirmação mais clara de nossa meta.
Ele estão com medo que o mov abolicionista animal tome conta do mundo, como aconteceu c/ o abolicionismo humano.
Um abração

Karin disse...

Muito bom!!! Esse texto é totalmente necessário pra conscientizar proptetores e população em geral.
Posso linkar esse blog no meu para divulgar?

gija disse...

oi td bem? esse texto é de sua autoria?
posso publicar no site www.jornalaside.com ?
achei muito bom porque muita gente simplesmente assina pelo modo como as coisas foram escritas, eles te induzem a pensar justamente o contrário de tudo o que você defendeu aqui.
obrigada!

gija disse...

ah, me responde por email por favor. gija@jornalaside.com

Sofia disse...

As coisas não vão mudar com um unico passo.

Se fizermos uma petição nos criterios que realmente gostariamos nem 5 % do que precisamos d assinaturas conseguiriamos.

estamos numa democracia, primeiro temos que ter a ideia, conscientizar, e então quando a maioria ou grande parte da população tiver se sensibilizado a nossa causa ,poderemos fazer um grande avanço...

Esse 8 ou 80 , vai ou racha, num leva ninguem a lugar nenhum, prefiro um passo, do que ficar no mesmo lugar..

Anônimo disse...

FAzer alguma coisa e melhor do que ficar sem fazer mnada como esse bando de veganos que nao fazem nada pelo bem-estar animal!

Falar e facil quero ver pegar e fazer com as proprias maos.

tsctsctsc, ao inves de criticar faca algo pelos animais!!!

Anônimo disse...

Voces que sao contra o bem-estar animal deveriam pensar que mudar o mundo e dificil, mudar aos pouco e bem mais facil

Um viva ao bem-estar animal!