segunda-feira, 24 de março de 2008

Na Natureza Selvagem: uma Jornada Violenta, Incoerente e Equivocada


"Na Natureza Selvagem" ("Into the Wild", em inglês) é, sem dúvida, o filme a se boicotar na temporada. Há tempos não via um filme tão equivocado, superficial, contraditório e, por fim, desprezível na sua condução visual e narrativa. Qualidades que pertencem também à história verídica em que se baseia.

Não se trata de questionar o talento do diretor, Sean Penn, que consegue boas tomadas, desenvolve a história em capítulos e flashbacks bem amarrados e extrai uma performance indiscutivelmente brilhante do ator principal, Emile Hirsch. A qualidade da trilha sonora eu já considero discutível, assim como alguns ganchos do filme - como quando um discurso do presidente americano George Bush (o pai) defendendo a Guerra contra o Iraque (a primeira, em 1991) é usado como paralelo para a decisão do personagem central de agir, em vez de esperar os acontecimentos. O problema maior, entretanto, são as idéias contidas e transmitidas no filme.

Inevitavelmente a história de Christopher McCandless iria, um dia, ser levada ao cinema. Ela é real, mas cheia de elementos cinematográficos: fugindo de uma infância traumática, escolado pela ganância e carreirismo dos pais, McCandless, um jovem com futuro promissor, larga a sua vida confortável e foge sem dar notícias, em busca de uma vida "simples", de contato com a natureza, numa jornada que o levaria ao Alasca.

O problema é que McCandless parece movido pelas razões erradas, o que lhe leva a escolhas igualmente erradas. Na tela, porém, o que se busca ressaltar é seu idealismo. Uma análise criteriosa, no entanto, e especialmente do ponto de vista abolicionista, revela as inconsistências do idealismo de McCandless e os equívocos a que ele o levou.

A impulsividade e revolta juvenil do protagonista, embora com motivações legítimas, contra o sistema e a própria família, o levam a uma jornada que deveria ser de auto-conhecimento, mas se torna destrutiva - destrutiva da família, incluindo a irmã, também vítima da violência familiar, e por fim também vítima da fuga do protagonista, sofrendo sem saber o destino do irmão; destrutiva da natureza; e destrutiva de si mesmo, num final que mostra, possivelmente sem se dar conta, o quanto o ser humano se afastou da natureza e não se encontra, portanto, preparado para retornar ao seu seio apenas por um golpe voluntarista.

McCandless é um fugitivo da civilização, mas sua revolta, canalizada para a fuga e a marginalidade, em nada contribui para uma crítica prática e realmente radical da mesma. Em suas andanças, ele trabalha em uma moderna colheita e uma rede de fast food, pega carona em trens e com motoristas em autoestradas, além de fazer constante uso de um rifle moderno para caçar. Ou seja: sempre que possível, McCandless que, idealista, queima o próprio dinheiro e abandona o próprio carro, não consegue escapar verdadeiramente da modernidade industrial. Ele constantemente se vale dela ao mesmo tempo em que a critica, uma atitude de eficácia e coerência questionáveis. De libertário e radical, McCandless não tem nada - é apenas um rebelde que não sabe o que fazer nem como canalizar sua justa indignação. E como é comum nessas situações de rebeldia ignorante e militante, quem sofre são indivíduos que nenhuma relação têm a indignação original - nesse caso, os animais selvagens.

O pior de tudo é mesmo a "comunhão" de McCandless com a natureza. Rifle a tiracolo, são inúmeras as cenas de caçadas e é sintomática - e abjeta - a centralidade que elas têm na história - com direito a uma longa e nauseante seqüência de desmembramento de um alce. Em uma cena anterior, um personagem ensina McCandless - e o espectador - a preservar a carne dos animais que caçar. Como o "supervagabundo" (codinome que o protagonista adota em sua fuga) consegue o rifle de caça moderno, não se diz. Talvez não seja conveniente à mensagem do cineasta-ativista Sean Penn. Comprado, ganhado ou roubado, o rifle não contribui para o contraponto que o diretor pretende fazer (civilização decadente X retorno à natureza). Pelo contrário, destaca, inconscientemente, o elo que existe entre os dois mundos que ele contrasta: uma sociedade em que adquirir uma arma de fogo é extremamente fácil; o culto norte-americano ao andarilho armado, solitário, aventureiro e destemido que forjou essa "grande" nação; e a violência que este culto enseja. Isso fica patente mesmo na obra de um crítico da sociedade norte-americana, como Penn, que mostra não conseguir enxergar a relação com a natureza senão como a de um homem armado matando animais selvagens. No final, o contraste se mostra, portanto, absolutamente falso.

Tampouco McCandless parecia conseguir enxergar as contradições embutidas na sua aventura. Ele não consegue sequer romper com o paradigma carnívoro da civilização ocidental - o filme, aliás, é pródigo em cenas de conversas em torno de pratos recheados de cadáveres, e conta ainda com a participação de um artesão de couro, ofício que McCandless se mostra feliz em aprender. Por fim, o protagonista paga o preço de seus equívocos. Apenas depois de faminto, sem animais por perto, ele finalmente decide estudar a flora local para descobrir frutos, folhas e raízes comestíveis - que seriam a base alimentar de qualquer sociedade caçadora-coletora. Tal conhecimento seria tradicional e transmitido geração após geração numa sociedade que vivesse em verdadeira comunhão com a natureza, mas ele não se dá ao trabalho de pesquisá-lo até o momento em que sua estratégia caçadora fracassa. O final demonstra, portanto, que McCandless não conseguiu escapar o suficiente da civilização para sobreviver, e sucumbe às suas próprias contradições e incoerências, e da sua incapacidade de cumprir seu propósito de se desligar do mundo moderno e viver com simplicidade. Esse acontecimento - real - mostra, na trajetória de um indivíduo, a separação de toda a humanidade da natureza.

No final, fica a dúvida se o retrato feito do protagonista - em geral simpático - contribui, em qualquer nível, para a crítica de suas falhas graves de atitude e percepção no que se refere à família, à sociedade, à natureza. Mesmo que seja possível fazer essa crítica, ela não salva o filme. A naturalização da relação violenta com os animais não permite. Nenhum abolicionista deve cometer o mesmo erro que eu, e dar dinheiro para este absurdo.

2 comentários:

Jeane Mendes Ferreira disse...

Divido com o Bruno o "erro" de ter ido assistir a esse filme. E ainda por cima, de ter feito o convite.

Poderia ter dado uma bela historia, sem duvida. Um cara bem sucedido, depois de cumprir os planos que a familia construiu para ele se ve finalmente livre para romper com tudo.

O problema é que tudo que aprendeu com essa sociedade podre e que supostamente estaria negando, continuou repetindo e o "contato" com a natureza se transformou em "confronto" até culminar finalmente na sua morte.

Tinha tudo pra ser uma bela historia e ainda assim, conseguiu ser um fracasso. Sera? Fico aqui pensando o motivo pelo qual "isso" virou filme. E minha imaginação so consegue me levar at� o ponto onde a história não é nada além de uma bandeira ás avesas onde a história do protagonista é apenas usada para reforçar o lado que supostamente estaria questionando num alerta para o que acontece com quem ousa escapar.

Anônimo disse...

A separação da natureza, só existe no pensar e agir humano.Agimos como se a natureza estivesse lá e nós aqui está percepção equívocada é uma das maiores senão a maior responsável pela destruição ambiental.