domingo, 6 de abril de 2008

Veganismo e Etnocentrismo - Parte II

Raposa ferida numa caçada. A tentativa de sua proibição, na Inglaterra suscitou debates sobre "direitos civis", "manejo ambiental" e "modos de vida tradicionais"

Assim como todo ser humano é passível de sofrimento, ele é passível de fazer escolhas morais para se abster de promover, ativa e conscientemente, o sofrimento alheio. É a esse bom-senso que os veganos apelam quando defendem que os animais sejam reconhecidos como indivíduos cuja vida, liberdade e integridades devem ser respeitadas. É possível viver bem e com saúde sem explorar animais. Portanto, não hesito em afirmar que viver de outra forma é pura e simplesmente errado. Todo ser que tem a capacidade de sofrer e sentir prazer deve ter sua dignidade respeitada. Os valores da vida, da liberdade e da integridade não podem ser menos importantes que uma tradição arraigada.

Diante de uma afirmação tão categórica, ressurge a questão do etnocentrismo e aparece também a do universalismo. Porque afirmar a prevalência de valores sobre a tradição não implica etnocentrismo? Vejamos separadamente cada uma destas questões.

Respeito aos animais: etnocentrismo eurocêntrico?

É comum, sendo que a defesa do veganismo é particularmente forte nos países ocidentais, sermos acusados de eurocentrismo. Essa acusação chega a ser risível. O consumo de carne é muito mais difundido no ocidente, um padrão cultural nascido na Europa e expandido para todos os países do mundo junto com a expansão capitalista - um dos indicadores usados para medir a prosperidade de um povo é sua ingestão de proteína animal. Logo, é o carnivorismo que pode ser mais associado à imposição de um padrão de vida e pensamento eurocêntrico (por "carnivorismo" me refiro à expansão do consumo de carne e sua centralidade na dieta humana; não uso o termo de forma irônica ou para ressaltar que haja algum tipo de carnivorismo estrito entre seres humanos). A maioria dos povos e religiões indo-asiáticos são muito mais próximos da cultura vegana, e há mesmo quem afirme que a filosofia do vegetarianismo chegou à Grécia Clássica por influência das religiões orientais. Budistas, hinduístas e jainistas estendem o princípio da não-violência aos animais, e por isso muitos deles são adeptos do vegetarianismo. Os jainistas, aliás, são a cultura onde o vegetarianismo estrito é mais praticado.

Também é importante notar que as culturas não ocidentais, mesmo produtoras de suas próprias barbaridades, têm uma visão muito mais integrada da natureza, o ser humano e os animais. Enquanto a sociedade industrial moderna vê os animais como máquinas de quem se extrair secreções e carne, as sociedades pré-modernas, mesmo quando fazem uso dos animais, reconhecem neles sujeitos merecedores de respeito. Em diversas culturas os animais podem encarnar divindades ou ser vistos como parte de um ciclo evolutivo espiritual (que, não obstante, coloca, naturalmente, o ser humano no topo do mesmo), enquanto a tradição religiosa ocidental afirma que os animais não têm alma, e que não lhes temos quaisquer deveres (pensamento herdeiro da escolástica medieval) e, na tradição secular, eles são autômatos desprovidos de sentimentos, interesses ou inteligência (pensamento herdeiro de Descartes). Percebe-se, portanto, que o pensamento moderno ocidental é um dos mais – senão o mais – nocivo à noção de respeito aos animais; que é o principal responsável pela difusão e expansão em escala industrial de diversas modalidades de exploração animal, muitas das quais não existiam em outras culturas – em países como o Japão até hoje não se tem o hábito de beber leite, por exemplo. Como ainda é possível sustentar a idéia de etnocentrismo eurocêntrico na defesa da libertação animal?

Solidariedade seletiva

A verdade é que todas as culturas têm alguma prescrição sobre o respeito que se deve dispensar aos animais. O problema é que o consumo de carne, leite e ovos, e a criação de animais para abate geralmente não entra nessa conta, muitas vezes por ignorância, outras por egoísmo. Matar animais para comer não é considerado cruel, numa demonstração de incoerência e cinismo comparáveis à aplicação da pena de morte nos Estados Unidos, apesar da condenação expressa de sua Constituição contra penas cruéis – a justificativa é que a pena de morte não seria cruel.

Os seres humanos costumam ser seletivos quanto a quem prestar solidariedade, e muitas vezes o fazem a partir de cálculos egoístas, não abrindo mão da menor comodidade, se isso for contribuir para a vida e a liberdade de outro ser senciente - isso é verdadeiro para outros seres humanos, não é surpreendente que o seja para outros animais. Eles também são seletivos quando a solidariedade se presta a indivíduos que não partilham de seus próprios princípios – os quais, por sua vez, muitas vezes mascaram interesses, de modo que a fronteira entre o primeiro e o segundo caso nem sempre é fácil de traçar.

Desse modo, os socialistas prestam solidariedade aos perseguidos políticos, torturados, executados e famintos vítimas do capitalismo. Subitamente, porém, pessoas que sofrem dos mesmos males em países socialistas não são dignas de solidariedade. Na China e na União Soviética, as tragédias não foram apenas políticas. Houve também fome e destruição do meio ambiente. Em conversa com defensores do socialismo real, os mesmos argumentos são brandidos: essas pessoas não são vítimas, mas inimigos de classe, que em circunstâncias excepcionais podem – e devem – ser sacrificados em nome da coletividade; essas tragédias são questões menores na construção da nova ordem justa e igualitária; elas foram amplificadas e exageradas pela “mídia burguesa”; esses países eram vítimas de campanhas e crises de desestabilização internacional, cujo gerenciamento exigiam atitudes excepcionais.

A direita não é pior: para preservar seus valores e interesses, promovem guerras, apóiam golpes de Estado e condenam populações à fome e à miséria. Também regimes conservadores sofrem do mesmo tipo de incoerência cínica: basta pensar em como o governo de George W. Bush viola direitos fundamentais, não apenas no Iraque, mas em Guantánamo e nos Estados Unidos, prendendo sem mandado, limitando o acesso a advogados, torturando – e ao mesmo tempo se diz defensor da liberdade e da democracia. Quando questionado, a resposta é parecida com a dos socialistas reais: os EUA vivem em estado de guerra e ataque do exterior, os quais forçam e justificam medidas de exceção.

Essa postura é o que eu chamo de “relativismo seletivo”: os erros do inimigo são absolutos e os direitos dos aliados, inegociáveis. Quando a situação se inverte, é porque bons motivos os justificam.

Você tem idéia da brutalidade necessário para domar um elefante?

Respeito aos animais: questão universal

Tratemos agora do universalismo.

Existem fenômenos universais: o amor, a dor, o prazer, a alegria, a tristeza, não são fenômenos culturais. Não são sequer fenômenos humanos. Um pequeno exemplo pode ser usado para ilustrar esse fato: elefantes que são capturados para “trabalharem” em circos ou no transporte em países asiáticos. Esses animais são submetidos a isolamento e maus-tratos para serem “domados”. Passam suas vidas distantes de seu habitat natural e separados de seus parentes – sendo o elefante um animal social. Podemos mesmo relativizar o sofrimento deste animal? Será mesmo que a crueldade intrínseca na exploração de sua força ou habilidades é relativa? Será que a tradição do uso de elefantes como transporte e arma de guerra – algo semelhante ao papel histórico do cavalo na Europa – é mais importante que o respeito à dignidade deste ser?

Tratar fenômenos universais como tal é entender que é possível compreender o outro, desenvolver empatia e, nesse processo, reconhecer sua dignidade e os direitos inalienáveis que esta lhe atribuir. Reconhecer a existência de fenômenos universais não precisa ser um signo da imposição de valores externos. Isso acontece quando se confunde a universalidade com o universalismo, a ideologia que promove a defesa de valores universais, a qual implica uma prescrição militante que resulta na separação do outro ou sua conversão.

Existe um elemento universalista na defesa do veganismo, da mesma forma que existe um elemento universalista na condenação unânime da escravidão humana. Todos os países condenam a escravidão humana como crime. Embora a escravidão tenha sido abolida por uma campanha ocidental, à qual podemos sem dúvida atribuir muita hipocrisia e muito etnocentrismo, seria hoje absurdo defender um retorno à época em que a escravidão humana era socialmente aceita em determinadas sociedades. Aqui, cabe ressaltar que a abolição da escravidão humana, não obstante os fins nada nobres que a motivaram, só foi possível justamente por haver esse ponto comum que possibilitou a tradução e reinterpretação do conceito de liberdade ocidental, iluminista, liberal e universalista. Algo que não foi possível, por exemplo, com as tentativas de supressão da religião na União Soviética ou China – idéias que não possuíam qualquer base social ou lógica, sendo a espiritualidade uma outra característica universal da humanidade.

Embora a filosofia dos direitos humanos seja ocidental, e dela derive em grande medida a filosofia contemporânea dos direitos animais, todas as culturas têm concepções que versam sobre a dignidade humana e, da mesma forma, sobre a relação com os demais animais, como vimos acima – muitas delas muito mais avançadas que a concepção ocidental dominante de matriz cristã-cartesiana.

O respeito aos animais é uma questão consagrada do mundo contemporâneo, embora de forma enviesada, tendenciosa, buscando preservar a exploração dos animais não-humanos. Mesmo onívoros militantes, a não ser que extremamente sádicos, concordam que não se deve tratar animais de forma cruel nem maltratá-los sem necessidade. A maioria se indignaria com casos flagrantes de injustiça contra animais vítimas de violência física ou assassinato por inanição – como aconteceu, respectivamente, com a cadela Preta, no Rio Grande do Sul e um cão numa exposição de "arte" na Nicarágua, casos que extrapolaram a comunidade vegetariana em termos de indignação.

Mas nem só fenômenos são universais. Todas as culturas têm suas concepções de dignidade e direitos. Vida, liberdade, integridade, dignidade não são conceitos puramente ocidentais – afirmar isso sim, seria etnocêntrico. São conceitos igualmente universais. Embora possam ser interpretados de formas distintas, são comuns ao ser humano. Dessa constatação é possível auferir a mesma conclusão: a universalidade não implica em imposição, mas em possibilidade de diálogo. Sua premissa: o respeito ao outro.

Tal diálogo não é apenas possível, mas igualmente necessário. Através do diálogo e da racionalidade, os seres humanos podem se entender e chegar a um acordo. Seria um diálogo intercultural que partiria, segundo o sociólogo Boaventura de Sousa Santos, de duas premissas: a tradução e a hermenêutica diatópica. A primeira afirma que as práticas e conhecimentos de diferentes culturas devem ser “traduzidas” para que sejam compreendidas em suas diferentes interpretações. A segunda afirma que idéias básicas de uma cultura – seus “topoi” – devem ser tratadas como premissas argumentativas, em vez de lugares-comuns inquestionáveis. A partir destas atitudes, pode-se encontrar zonas de contato que possibilitem o entendimento e o trabalho conjunto. Santos adverte, entretanto, que tal diálogo pode em nada avançar na compreensão e respeito pelo outro se não se observar um critério básico: “das diferentes versões de uma dada cultura, deve ser escolhida aquela que representa o círculo mais amplo de reciprocidade dentro dessa cultura, a versão que vai mais longe no reconhecimento do outro” (SANTOS, 2002). Ou seja: o estudo de Santos tem origem oposta ao do relativismo. Em primeiro lugar, ele rejeita a idéia de que as culturas sejam unívocas e imutáveis; rejeita que não se pode estabelecer um diálogo entre culturas; e, por fim, declara que é o pensamento mais abrangente no respeito à alteridade que deve ser buscado para o diálogo – o que implicaria dizer, é o pensamento que dá voz ao oprimido, não ao opressor; à adúltera, não ao apedrejador. Ao touro, não ao toureiro.

Mais uma cena da moderna exploração industrial: o descarte de vidas inúteis para o explorador

A resposta para a tensão entre relativismo e universalismo tentarei dar na parte final do texto:

Veganismo e Etnocentrismo - Final

Primeira parte do texto: Veganismo e Etnocentrismo - Parte I

domingo, 30 de março de 2008

Veganismo e Etnocentrismo - Parte I

Cães criados por sua carne, na China: nem melhor, nem pior. Igualmente bárbaro.

Não é incomum nos depararmos com esta acusação, quando defendemos o veganismo: afirmam que comer carne é uma questão cultural, e que tentar mudá-la não é apenas autoritário, mas também etnocêntrico (ou seja, a imposição da própria cultura sobre as demais). Hoje gostaria de desmistificar essa idéia.

O buraco negro do relativismo

Essa questão incorre, inevitavelmente, na armadilha do relativismo cultural, o qual afirma que todas as culturas são relativas e se equivalem.

Respeitar as diferenças culturais não significa sacralizá-las nem considerá-las imutáveis - o que é uma interpretação conservadora que não combina com o discurso, em geral progressista, dos que apelam para o relativismo cultural como princípio, e não ferramenta de análise. O que os relativistas não entendem é que equivalência não exclui a incompletude. Todas as culturas são incompletas. Apontar tais incompletudes não é manifestação hegemonista ou preconceituosa.

O relativismo cultural se apresenta em círculos cada vez mais próximos do indivíduo. Consideram que não podemos criticar culturas de outra matriz civilizacional (ex: ocidentais não podem criticar orientais ou indígenas). Depois, consideram que não podemos criticar outros países, mesmo que da mesma matriz civilizacional (brasileiros não podem criticar, digamos, as touradas espanholas). Daí a coisa se estende para regiões do mesmo país, pessoas de outras classes sociais, outro sexo, outra geração até que, finalmente, talvez não tenhamos o direito de criticar ninguém além de nós mesmos, numa ditadura do acriticismo relativista politicamente correto.

O que tais pessoas não entendem é que é impossível viver sem fazer julgamentos, emitir opiniões. Fazemos isso o tempo todo, e não há nada de necessariamente errado nisso. Também não entendem que a cultura não é imutável, e que suas transformações muitas vezes se dão pela luta ativa por mudanças, não apenas por uma suposta evolução interior sem atropelos. Embora a cultura - como os indivíduos - só mude através da aceitação geral de novos paradigmas, diálogo e o convencimento são ferramentas necessárias no processo e que, aliás, são usadas por todos, o tempo todo.

Alegar que a carne deve ser respeitada por ser cultural equivale a dizer que devemos respeitar atrocidades do passado e do presente. Pena de morte, tortura, mutilação genital (masculina e feminina) são práticas existentes e socialmente aceitas ainda em muitas culturas. Isso sem mencionar questões como a opressão feminina, o racismo, a homofobia, que com variações, são provavelmente universais. Seria errado condená-las como bárbaras por acontecerem fora do meu círculo social?

Por fim, o relativismo é uma atitude que se auto-anula: se eu me declaro incapaz de julgar qualquer opinião, como posso condenar atitudes que considerar absolutistas? Se todas as práticas e opiniões são relativas, como eu posso condenar pessoas que lutam contra determinadas atitudes que elas consideram injustas (criação de animais, tortura de seres humanos, apedrejamento de adúlteras)? Afinal, se tudo é relativo, também a relatividade é relativa. Se devo respeitar toda e qualquer opinião, devo também respeitar a opinião de quem combate tais atrocidades. Então, o relativista se mostra, na melhor das hipóteses, incoerente.

Se a questão é tão somente se manifestar contra atitudes e opiniões expressas em outro tempo e outras culturas, deveríamos nos questionar se as culturas são estanques, incapazes de dialogar entre si – o que é, obviamente, uma mentira. Nenhuma cultura vive isolada. Deveríamos igualmente nos questionar sobre a adoção seletiva de idéias estrangeiras: se o capitalismo, o nacionalismo e o socialismo são adequados para outras culturas, por que não o respeito aos direitos individuais?

Dor e sofrimento não são relativizáveis

É comodismo e covardia apelar para o relativismo diante de violações flagrantes dos direitos individuais básicos - liberdade, vida, integridade. Dor é dor, não é algo relativizável. Quem o faz, geralmente faz com pessoas distantes, no espaço e/ou no tempo, o que nos desobriga do exercício da empatia. É muito fácil fechar os olhos para um injustiça praticada longe de nós, sem sequer sentir um pouco de culpa pela nossa indiferença.

Todos os seres humanos têm o mesmo interesse na sua dignidade e integridade, moral e física. Quem acha que não devemos criticar pessoas que apedrejam adúlteras e mutilam mulheres deveria imaginar como seria conversar com essas mulheres para saber o que elas pensam de seu destino. Mesmo se alguma delas se manifestar conformada, ainda devemos defender o seu direito, e também de todas as outras. E se apenas uma se mostrar inconformada – o que é inevitável –, é porque aquela experiência cultural não pode ser absolutizada, universalizada. A crítica torna-se, então, não apenas possível, mas justa e necessária.

Ave hiper-alimentada, à força, para produzir "iguaria" francesa: foie gras

Cito um exemplo de um caso que acontece numa cultura distante não porque não haja exemplos gritantes de injustiça e violência na nossa cultura ocidental judaico-cristã, e sim para demonstrar que violações de direitos básicos cometidas em outras culturas podem - e devem - ser criticadas. Os povos islâmicos que ainda praticam o apedrejamento e a mutilação genital feminina, igualmente, têm pleno direito de apontar injustiças nas sociedades ocidentais judaico-cristãs. Da mesma forma, nunca me sinto ofendido quando um estrangeiro denuncia violações de direitos fundamentais praticados no Brasil (trabalho escravo, prostituição e trabalho infantil, tortura, grupos de extermínio, dentre outros absurdos que infelizmente nos são comuns). O que não pode acontecer – mas geralmente é o que ocorre – é uma coletividade usar os erros de outra como álibi para desqualificar as críticas recebidas e se desobrigar de trabalhar por mudanças.

A radicalização do relativismo cultural nos levará, um dia, a afirmar a impossibilidade de criticar injustiças aberrantes e indiscutíveis, como os campos de concentração nazistas, os gulags soviéticos, os Campos da Morte do Camboja, o colonialismo e diversas outras modalidades de genocídio. Isso se torna uma atitude previsível, a continuar prevalecendo o relativismo absoluto (uma contradição em termos!), especialmente à medida que essas experiências mencionadas se distanciam no tempo e os relativistas ganham outro "argumento": o de que julgamos esses eventos com olhos contemporâneos, incorrendo em anacronismo.

O que fazer?

Os relativistas gostam de nos acusar de defender uma ditadura que apaga as diferenças culturais, quando na verdade são eles que partem do errôneo pressuposto da homogeneidade cultural de civilizações, países, classes sociais, etc. Visões divergentes sempre existirão. E nesse universo de inúmeras possibilidades, é o ponto de vista que demonstra maior empatia pela vida, dignidade, liberdade do outro que deve ser defendido. Nosso compromisso, portanto, não deve ser nunca com a absolutização da cultura - que é sempre, aliás, a cultura dominante - que justifica a opressão, mas sim com aqueles oprimidos, violentados, vulneráveis. O compromisso com a liberdade e justiça para quem sofre.

Claro que a ferramenta para lutar contra a opressão nunca passa pela simples imposição, até pelo fato de que ela não é uma forma de mudança efetiva. Empreender guerras preventivas ou "humanitárias" não é uma solução viável para mudar a realidade, inclusive do ponto de vista estratégico. Quando uma injustiça acontece sob nossos olhos, devemos intervir. Mas se ela acontece do outro lado do planeta, promovida por pessoas com outros valores e outro idioma, esse tipo de ação direta se mostra inadequado, ineficaz, perigoso. Mas isso não é uma licença para silenciar: os indivíduos têm sua voz, seu poder pessoal de boicotar, de dialogar, de irradiar, para combater injustiças cometidas por governos, corporações ou indivíduos; e pressionar seus governos para igualmente denunciar e boicotar as injustiças – como no caso atual das Olimpíadas de Pequim, que deveriam ser boicotadas pelos governos, atletas e pelo público. Neste último caso, medidas individuais fariam muita diferença: não comprar produtos chineses, não comprar de patrocinadores dos Jogos de Pequim, não assistir às competições, não viajar para a China, seja para turismo comum, seja para assistir aos Jogos (no caso daqueles que têm recursos e que planejam fazê-lo).

A melhor forma para se encarar as injustiças e as flagrantes violações de direitos individuais básicos não é nem o silêncio nem a imposição, mas o diálogo. Especialmente no caso de diferentes culturas. O diálogo intercultural permite explorar pontos de contato, apontar falhas e incoerências mútuas. Deve-se buscar a cooperação entre indivíduos cujos pensamentos se completam, independente das raízes culturais e fronteiras nacionais. Por isso os defensores dos direitos individuais básicos devem estabelecer canais de diálogo com os que lutam contra a opressão nas diferentes partes do mundo. E por isso os governos gostam de acusar grupos dissidentes de traição à pátria – especialmente os regimes autoritários.

Ocidentalíssima criação de porcos: por que só a estupidez pode ser universal?

Na próxima postagem, explicarei como esta lógica se estende ao veganismo e à libertação animal:

Veganismo e Etnocentrismo - Parte II

segunda-feira, 24 de março de 2008

Na Natureza Selvagem: uma Jornada Violenta, Incoerente e Equivocada


"Na Natureza Selvagem" ("Into the Wild", em inglês) é, sem dúvida, o filme a se boicotar na temporada. Há tempos não via um filme tão equivocado, superficial, contraditório e, por fim, desprezível na sua condução visual e narrativa. Qualidades que pertencem também à história verídica em que se baseia.

Não se trata de questionar o talento do diretor, Sean Penn, que consegue boas tomadas, desenvolve a história em capítulos e flashbacks bem amarrados e extrai uma performance indiscutivelmente brilhante do ator principal, Emile Hirsch. A qualidade da trilha sonora eu já considero discutível, assim como alguns ganchos do filme - como quando um discurso do presidente americano George Bush (o pai) defendendo a Guerra contra o Iraque (a primeira, em 1991) é usado como paralelo para a decisão do personagem central de agir, em vez de esperar os acontecimentos. O problema maior, entretanto, são as idéias contidas e transmitidas no filme.

Inevitavelmente a história de Christopher McCandless iria, um dia, ser levada ao cinema. Ela é real, mas cheia de elementos cinematográficos: fugindo de uma infância traumática, escolado pela ganância e carreirismo dos pais, McCandless, um jovem com futuro promissor, larga a sua vida confortável e foge sem dar notícias, em busca de uma vida "simples", de contato com a natureza, numa jornada que o levaria ao Alasca.

O problema é que McCandless parece movido pelas razões erradas, o que lhe leva a escolhas igualmente erradas. Na tela, porém, o que se busca ressaltar é seu idealismo. Uma análise criteriosa, no entanto, e especialmente do ponto de vista abolicionista, revela as inconsistências do idealismo de McCandless e os equívocos a que ele o levou.

A impulsividade e revolta juvenil do protagonista, embora com motivações legítimas, contra o sistema e a própria família, o levam a uma jornada que deveria ser de auto-conhecimento, mas se torna destrutiva - destrutiva da família, incluindo a irmã, também vítima da violência familiar, e por fim também vítima da fuga do protagonista, sofrendo sem saber o destino do irmão; destrutiva da natureza; e destrutiva de si mesmo, num final que mostra, possivelmente sem se dar conta, o quanto o ser humano se afastou da natureza e não se encontra, portanto, preparado para retornar ao seu seio apenas por um golpe voluntarista.

McCandless é um fugitivo da civilização, mas sua revolta, canalizada para a fuga e a marginalidade, em nada contribui para uma crítica prática e realmente radical da mesma. Em suas andanças, ele trabalha em uma moderna colheita e uma rede de fast food, pega carona em trens e com motoristas em autoestradas, além de fazer constante uso de um rifle moderno para caçar. Ou seja: sempre que possível, McCandless que, idealista, queima o próprio dinheiro e abandona o próprio carro, não consegue escapar verdadeiramente da modernidade industrial. Ele constantemente se vale dela ao mesmo tempo em que a critica, uma atitude de eficácia e coerência questionáveis. De libertário e radical, McCandless não tem nada - é apenas um rebelde que não sabe o que fazer nem como canalizar sua justa indignação. E como é comum nessas situações de rebeldia ignorante e militante, quem sofre são indivíduos que nenhuma relação têm a indignação original - nesse caso, os animais selvagens.

O pior de tudo é mesmo a "comunhão" de McCandless com a natureza. Rifle a tiracolo, são inúmeras as cenas de caçadas e é sintomática - e abjeta - a centralidade que elas têm na história - com direito a uma longa e nauseante seqüência de desmembramento de um alce. Em uma cena anterior, um personagem ensina McCandless - e o espectador - a preservar a carne dos animais que caçar. Como o "supervagabundo" (codinome que o protagonista adota em sua fuga) consegue o rifle de caça moderno, não se diz. Talvez não seja conveniente à mensagem do cineasta-ativista Sean Penn. Comprado, ganhado ou roubado, o rifle não contribui para o contraponto que o diretor pretende fazer (civilização decadente X retorno à natureza). Pelo contrário, destaca, inconscientemente, o elo que existe entre os dois mundos que ele contrasta: uma sociedade em que adquirir uma arma de fogo é extremamente fácil; o culto norte-americano ao andarilho armado, solitário, aventureiro e destemido que forjou essa "grande" nação; e a violência que este culto enseja. Isso fica patente mesmo na obra de um crítico da sociedade norte-americana, como Penn, que mostra não conseguir enxergar a relação com a natureza senão como a de um homem armado matando animais selvagens. No final, o contraste se mostra, portanto, absolutamente falso.

Tampouco McCandless parecia conseguir enxergar as contradições embutidas na sua aventura. Ele não consegue sequer romper com o paradigma carnívoro da civilização ocidental - o filme, aliás, é pródigo em cenas de conversas em torno de pratos recheados de cadáveres, e conta ainda com a participação de um artesão de couro, ofício que McCandless se mostra feliz em aprender. Por fim, o protagonista paga o preço de seus equívocos. Apenas depois de faminto, sem animais por perto, ele finalmente decide estudar a flora local para descobrir frutos, folhas e raízes comestíveis - que seriam a base alimentar de qualquer sociedade caçadora-coletora. Tal conhecimento seria tradicional e transmitido geração após geração numa sociedade que vivesse em verdadeira comunhão com a natureza, mas ele não se dá ao trabalho de pesquisá-lo até o momento em que sua estratégia caçadora fracassa. O final demonstra, portanto, que McCandless não conseguiu escapar o suficiente da civilização para sobreviver, e sucumbe às suas próprias contradições e incoerências, e da sua incapacidade de cumprir seu propósito de se desligar do mundo moderno e viver com simplicidade. Esse acontecimento - real - mostra, na trajetória de um indivíduo, a separação de toda a humanidade da natureza.

No final, fica a dúvida se o retrato feito do protagonista - em geral simpático - contribui, em qualquer nível, para a crítica de suas falhas graves de atitude e percepção no que se refere à família, à sociedade, à natureza. Mesmo que seja possível fazer essa crítica, ela não salva o filme. A naturalização da relação violenta com os animais não permite. Nenhum abolicionista deve cometer o mesmo erro que eu, e dar dinheiro para este absurdo.

quarta-feira, 19 de março de 2008

Agradecimento

À minha miguxa Rachel Siqueira, o fake mais autêntico da internet, por ter me ajudado a melhorar a interface do meu blog e cedido, gentilmente, a BELÍSSIMA foto que lhe serve de imagem de apresentação.

Obrigado, Chel. Te adoro!

Aproveito e divulgo o blog que ela divide com outras duas amigas, a Emanuelle (Manuka) e Janaina (Jan Jan):

http://sandubavegano.blogspot.com

Crítica à Declaração Universal de Bem-Estar dos Animais


Já há mais de um ano tem circulado na internet pedidos de apoio à Declaração Universal de Bem-Estar dos Animais - ainda em fase de rascunho, podendo ser alterada sem aviso prévio aos signatários. Quero crer que a adesão em massa de vegetarianos a essa Declaração se deva à ingenuidade, mais que à concordância. Muitos vêem a frase "Para mim os Animais Importam" que geralmente acompanha a divulgação do documento, e podem se deixar enganar. Outros não estão ainda familiarizados com os debates sobre as questões animais - os mais escolados sabem que "Bem-Estar", um termo que parece encerrar coisas boas, na verdade carrega implícita a idéia de que não é a liberdade que conta, mas apenas o conforto. Animais em jaulas confortáveis esperando a inevitável violação de sua integridade física e/ou psíquica, uma vez já violado seu direito básico à liberdade.

Outro engano possível é supor que o bem-estarismo, a redução do sofrimento, é uma fase necessária no processo de libertação animal. Na verdade, enquanto lutarmos pelo bem-estar, por definição, não estaremos lutando pela libertação. Não se pode chancelar e condenar a exploração ao mesmo tempo. E o bem-estarismo nitidamente chancela a exploração, constatação que aflora límpida da análise desse documento.

Quero, então, fornecer elementos à crítica e, portanto, repúdio completo à Declaração Universal de Bem-Estar dos Animais, promovida pela World Society for the Protection of Animals (WSPA, Sociedade Mundial de Proteção Animal), uma entidade assumidamente bem-estarista, de raízes anglo-americanas, surgida em 1981.

A Declaração não se dispõe a condenar qualquer das formas de exploração animal listadas - sem dúvida as mais disseminadas em todo o mundo. Inclusive aquela que é, possivelmente, a mais bárbara de todas: a vivissecção. Ela tão somente pede que a exploração seja feita observando critérios (nem mesmo limites: apenas critérios de bem-estar). Destaco alguns trechos que tornam indiscutível o respaldo que ela dá à exploração animal:

RECONHECER que a utilização de animais por parte dos humanos pode reverter em benefícios importantes

Ninguém pode afirmar que a escravidão é justa quando rende benefícios ao escravista. O que importa é que a escravidão rende inequívocos malefícios ao escravo.

RECONHECER que (...) os vegetarianos desempenham um papel importante na conservação quer da saúde, quer do bem-estar animal

Este trecho disfarça, sob o manto da suposta exaltação, uma minimização da importância do vegetarianismo. O veganismo – que é o vegetarianismo estrito (sem nenhum alimento de origem animal) somado ao boicote de outros produtos resultantes da exploração animal – é a base inegociável de uma atitude de coerência e respeito em relação aos animais. Enquanto houver seres humanos que se alimentem dos animais e suas secreções, não é possível preservar a saúde e o bem-estar dos mesmos, menos ainda a sua liberdade. Assim, o vegetarianismo e mesmo o veganismo são meros paliativos enquanto ainda houver exploradores. E mesmo o veganismo só terá efeito sobre a vida dos animais quando for adotado por toda a humanidade, ou por uma maioria capaz de levar adiante a abolição da exploração animal.

RETER que as "cinco liberdades (livre de fome, de sede e de má nutrição; livre de medo e de perigo; livre de desconforto físico e térmico; livre de dor, ferimento e doença; e liberdade para expressar padrões normais de comportamento)" e as "três medidas (redução do número de animais, aperfeiçoamento dos métodos experimentais e substituição dos animais nas técnicas utilizadas)" facultam uma orientação valiosa para a utilização de animais

Ora, todas essas liberdades são diretamente atacadas, de modo evidente, pela pecuária, pelo abate de animais para alimentação e pela vivissecção - além das outras formas de escravidão. É muito fácil demonstrar que mesmo que as cinco liberdades sejam respeitadas ao longo da vida do animal - o que é altamente improvável -, elas serão imediatamente e irrevogavelmente violadas no momento do abate ou da vivissecção. Logo, a Declaração é incoerente, se não hipócrita. As três medidas, ou 3 Rs (dos termos no inglês, "reduction", "refinement", "replacement"), por sua vez, existem já há quase 50 anos - foram formuladas em 1959, na Grã-Bretanha. De lá para cá o número de animais empregados em laboratório apenas aumenta, o que mostra a total falência do paradigma bem-estarista e sua incapacidade de atingir os próprios objetivos reformistas. Mais que isso, demonstra que o reformismo apenas existe para aprimorar a exploração animal. Por fim, o trecho "orientação valiosa para a utilização de animais" não deixa dúvidas. A Declaração afirma que com regulamentação e observando-se certas premissas, a exploração animal é aceitável, e esse pensamento nunca levará ao fim da exploração e, longe de proteger os animais, chancela, em última instância, os maus-tratos e a crueldade que são intrínsecos a atividades como a pecuária e a vivissecção. É, portanto, uma Declaração que sofre de má-formação congênita pois torna os animais vulneráveis no mesmo momento em que os pretende proteger.

3. Os [estados] devem empreender todas as medidas adequadas para evitar a crueldade para com os animais e para reduzir o seu sofrimento

Se o sofrimento requer redução, está implícito o reconhecimento de que ele será, em algum momento, promovido. Em contraste com esta Declaração bem-estarista, uma Declaração abolicionista assumiria o compromisso não de reduzir, mas de abster-se de promover qualquer tipo de sofrimento deliberado e desnecessário ao animal não-humano, só sendo legítimo causar algum dano quando para protegê-lo de um sofrimento maior, e não para atender a interesses alheios.

4. As normas adequadas para o bem-estar dos animais devem continuar a ser desenvolvidas e elaboradas, tais como, mas não só, as que dizem respeito à utilização e gestão de animais de quinta, animais de companhia, animais utilizados em pesquisas científicas, animais de carga, animais selvagens e animais para fins recreativos.

Aqui fica claro que não há qualquer condenação de nenhum tipo, nenhuma crítica fundamental, de base, à exploração animal como um todo ou a alguma modalidade de exploração animal em particular.

Em conclusão, pode-se dizer que esta Declaração não atende a nenhum interesse fundamental dos animais não-humanos, mas tão somente ao interesse egoísta do ser humano em continuar explorando-os, promovendo um suposto bem-estar, para apaziguar suas consciências, torná-la mais aceitável frente a toda a sociedade, e não colocar jamais em risco os benefícios - em geral econômicos e políticos - advindos da mesma. Assim sendo, é uma vergonha que os vegetarianos que se declaram defensores dos animais apóiem tal farsa. Ela deve ser denunciada, e o esforço para fazê-lo deve ser empregado para ensejar um debate amplo na promoção não do bem-estar, mas da LIBERTAÇÃO ANIMAL.

Neste link há uma versão expandida deste texto, analisando outros trechos da Declaração e estendendo algumas considerações dos trechos acima destacados:

http://www.sentiens.net/top/PA_TRI_brunomuller_09_top.html

segunda-feira, 4 de fevereiro de 2008

Libertação Animal no Fórum Social Mundial 2008


Este ano o Fórum Social Mundial foi descentralizado, com eventos em mais de 100 cidades de todo o mundo - sete no Brasil, entre elas o Rio de Janeiro. E a Libertação Animal marcou presença.

Fomos, como era esperado, o único grupo a levar a mensagem nas atividades do Fórum Social Mundial no Rio de Janeiro. Mas imagino se houvesse um grupo desses em cada cidade onde houve atividades - por si só seria uma vitória, pois significaria que a Libertação Animal e o veganismo estão se espalhando pelo mundo. Mas, além disso, abririam mil oportunidades de diálogo com ativistas das mais diferentes vertentes, mas todos comprometidos com um mundo melhor.

A receptividade foi melhor que a esperada. Num ambiente politizado, esperávamos críticas sobre a suposta alienação dos vegetarianos, a suposta imoralidade de ir contra a carne num país onde pessoas passam fome, a suposta prioridade dos interesses dos seres humanos sobre os dos demais animais. Mas, para nossa grata surpresa, a receptividade foi IMENSA. Conseguimos um espaço para expôr nossas idéias, apesar de não termos nos inscrito no prazo, trocamos idéias, encontramos outros vegetarianos e até fomos entrevistados. A presença única e marcante de ativistas pela libertação animal gerou curiosidade no público, nos participantes e na imprensa. Foram dadas entrevistas à Folha de São Paulo e a dois estudantes universitários que faziam um filme para a faculdade.

Tudo isso mostra que ativistas de verdade tendem mais à empatia e ao respeito do que ao repúdio - afinal, todos que estão ali lutam por algo em que acreditam, muitas vezes colocando de lado seus interesses particulares. De fato, como já foi dito algumas vezes, quem questiona os defensores dos animais por não lutarem pelas crianças, muito provavelmente não defende nem os animais, nem as crianças.

Abaixo, o texto do panfleto que redigimos especialmente para o evento.

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VEGANISMO: Liberdade para todos os seres, contra todas as formas de Tirania

Anualmente, o Fórum Social Mundial ecoa a mensagem de que um outro mundo é possível: um mundo livre, justo, igualitário, sem exploração. Enquanto se dá o encontro, milhões são mortos e torturados de forma injusta e sistemática. Estes indivíduos não são considerados nem respeitados em seus direitos básicos mesmo por muitos que, como nós, estão dispostos a lutar por um outro mundo. Não estamos falando dos famintos do mundo, dos prisioneiros políticos. Falamos dos animais que os seres humanos confinam, escravizam, torturam e matam para seu benefício próprio.

30 bilhões de animais são mortos por ano para experimentação científica
30o milhões são mortos para alimentação
400 milhões para caça esportiva
120 milhões para a indústria da moda
40 milhões para controle de zoonoses
(dados oficiais, divulgados pela Sociedade Vegetariana Brasileira).


Estas mortes, em sua maioria legais e estimuladas pelos governos, são desnecessárias e, na maioria das vezes, precedidas de privação de liberdade e sérios danos físicos e psicológicos às suas vítimas.

Sem libertação animal, uma humanidade livre não será melhor que a antiga democracia ateniense, em que os aristocratas exerciam a democracia direta enquanto mantinham escravos e excluíam as mulheres das assembléias. Ou seja, a humanidade não passará de uma TIRANIA. A menos que o ser humano pare de se comportar como o tirano da natureza, um outro mundo não será possível. Não pode haver paz e justiça enquanto o ser humano exercer a tirania sobre os seus semelhantes e os mais vulneráveis. Isso não significa que seres humanos e animais devam ser tratados com total igualdade, apenas que sejam garantidos direitos iguais naqueles interesses que lhes são comuns: a vida, a liberdade e a integridade física e psíquica. Animais são capazes de sentir dor e prazer, têm sentimentos, criam laços afetivos com seus iguais e seus filhotes. Ignorar seus interesses básicos, portanto, é injusto e irracional.

Para condenar-se eticamente o massacre de animais, não importa a racionalidade destes, e sim sua capacidade sofrer. Assim, defendemos que o direito à vida, à liberdade e à integridade física e psíquica não são apenas direitos humanos. São DIREITOS ANIMAIS.

A libertação humana passa pela libertação animal: significa libertar-se do preconceito, a presunção de superioridade, da ignorância e da obsessão por poder que justifica a dominação dos animais. A exploração animal escraviza a humanidade: a pecuária contribui mais para o efeito estufa que os transportes; é a maior responsável por desmatamento no mundo; concentra renda; torna países dependentes da importação de alimentos. Carne, ovos e laticínios estão diretamente ligados a diversos males de saúde. Os testes com animais em laboratórios induzem a erros e atrasam o avanço da ciência. Essas atividades representam, acima de tudo, vultosos interesses econômicos que o Fórum Social Mundial combate.

O fim da escravidão animal depende apenas do ato pessoal de boicotá-la: não consumir carne, laticínios, ovos, mel; lã, seda, couro, pêlos, peles, penas; produtos testados em animais; comércio de animais domésticos, zoológicos, rodeios, rinhas e esportes que envolvam animais. Este boicote se chama VEGANISMO, um estilo de vida viável a todos, baseado numa visão mais ampla de justiça, liberdade e igualdade.

Grandes humanistas foram defensores dos direitos dos animais: homens como Rousseau, Henry David Thoreau, Tolstoi e Gandhi. Libertação humana e animal devem andar juntas: SEJA VEGANO(A)!

Para saber mais sobre Direitos Animais: http://www.direitosanimais.org/
Pensata Animal, artigos sobre Direitos Animais: http://www.sentiens.net/top/PENSATA_capa_top.html
Texto da FAO sobre impacto ambiental da pecuária (espanhol): http://www.fao.org/newsroom/es/news/2006/1000448/index.html
Relatório oficial da FAO (inglês): http://www.virtualcentre.org/en/library/key_pub/longshad/A0701E00.pdfpdf
Descubra quais empresas testam e quais não testam em animais:www.pea.org.br/crueldade/testes/index.htm
Para saber mais sobre nutrição vegana: www.guiavegano.com.br/nutricao
No Rio de Janeiro: http://www.gentilezavegana.blogspot.com/
Dúvidas? Escreva-nos: veganismo.rj@gmail.com

Libertação Animal: Um outro mundo é possível

sexta-feira, 18 de janeiro de 2008

Entrevista ao blog VegPiTa

Abaixo está o link para entrevista que concedi ao blog VegPiTa. Além de mim, outros ativistas responderam a perguntas enviadas pelo administrador do blog.

http://vegpita.blogspot.com/2008/01/entrevista-bruno-mller.html

Estive ausente nas primeiras semanas do ano. A partir da semana que vem retomarei as postagens.

segunda-feira, 31 de dezembro de 2007

Testes em laboratórios: cruéis, desnecessários, perigosos



Muito se tem falado sobre os testes em laboratório, e mesmo assim esse tema ainda está longe de alcançar o consenso necessário para ser o passo definitivo - mesmo entre os vegetarianos e defensores dos animais.

É sabido, público e notório que não precisamos de carne para viver. Que não precisamos de zoológicos, rodeios, rinhas, corridas de animais... É muito fácil e cômodo se posicionar contra estas coisas. Nenhuma delas implica um sacrifício muito grande ou uma dúvida razoável.

Mas quando se trata da abolição definitiva de produtos de origem animal ou de boicotar os testes em laboratório a coisa muda de figura. Aí mesmo pessoas supostamente defensoras dos direitos dos animais recuam, tergiversam, relativizam. Existem dois problemas com essa postura. Uma referente à ignorância que permeia essas opiniões. Outra referente a uma ética pela metade - que se revela, portanto, como ética nenhuma.

Vamos primeiro à ética, porque este é o ponto primordial.

Quando se debate sobre os direitos fundamentais de indivíduo, são os direitos e necessidades desse indivíduo que devem ser levados em consideração. Pouco importa se a defesa desses direitos fundamentais poderá afetar negativamente os interesses de outro indivíduo. Por isso tantos abolicionistas insistem no paralelo entre a exploração animal e a escravidão humana: quando se debate os direitos dos animais cria-se uma suposta e arbitrária hierarquia em que os interesses mesquinhos, não essenciais de um ser humano estão acima dos interesses fundamentais de qualquer animal à vida, à liberdade, à integridade física e psíquica.

E fica claro, então, que a ética que rege nossas relações com os animais não é uma ética verdadeira, mas uma definição de critérios de como podemos explorar animais, sob que circunstâncias, e para que fins. E daí estabelece-se que aprisionar, torturar e matar animais é justo e necessário para salvar vidas humanas.

Essa postura é a miséria moral do ser humano. Não é eticamente justificável submeter animais à dor e sofrimento constante para extrair disso benefícios próprios - da mesma forma que não é eticamente justificável submeter outros seres humanos à dor e sofrimento para atingir o mesmo fim.

Quando em defesa dos testes, os vivisseccionistas costumam cair em contradição. Afirmam que é eticamente justificável pois esses animais não são como nós. Mas afirmam que os testes são seguros e úteis devido às semelhanças desses animais conosco.

É verdade, nós temos muitas semelhanças com os outros animais. Longe de justificar a validade da vivissecção, essa constatação expõe toda a sua imoralidade. Animais que são sensíveis, dotados de sentimentos, raciocínio, de interesses, capazes de sentir dor e prazer - como nós - não podem ser submetidos a tamanhas sevícias sem que haja uma doença profunda na humanidade, muito maior que aquela que pretendemos curar com tais testes - uma doença ética, moral, em que o ser humano, a despeito de ser dotado de reflexão, opta por ignorar o sofrimento que provoca em suas vítimas porque seu cálculo matemático, utilitarista, especista, afirma que é melhor matar alguns milhões de animais para, assim, preservar vidas humanas. Essa é a justificativa que apresentam. E muitos supostos defensores dos animais caem nessa armadilha.



A realidade é, porém, muito mais atroz do que esse suposto dilema moral entre matar uns para salvar outros. E é essa realidade que precisa ser debatida publicamente para enterrar os argumentos "altruístas" dos defensores dos testes em animais.

Em primeiro lugar, muitos dos testes que são feitos são arcaicos, ultrapassados, e apenas levados adiante porque são formas baratas de conseguir um certificado de "segurança" para um determinado produto.

Em segundo lugar, a "segurança" que se busca com esses testes não é a segurança do cidadão - ou "consumidor". É a segurança da empresa que comercializa aquele produto - sejam cosméticos ou medicamentos. Para atestar a "segurança" de um shampoo, por exemplo, coelhos são expostos ao composto até ficarem cegos - quando qualquer ser humano sabe que deve evitar o contato do shampoo com os olhos e, se acidentalmente isso acontecer, será por um período de poucos segundos, após o qual todos sabemos que devemos lavar os olhos com água em abundância. Com o conhecimento que acumulamos ao longo dos tempos não precisamos mais torturar animais para chegar a certas conclusões.

A partir daí muitas pessoas passam a concordar com a abolição dos testes de cosméticos e outros produtos supérfluos. Mas e os medicamentos? Eles não salvam vidas?

Aqui, há que se considerar primeiramente a enorme quantidade de erros que o modelo da experimentação animal produziu ao longo das décadas. A maioria dos medicamentos aprovados em testes com animais são posteriormente reprovados na fase de testes com seres humanos ou então recolhidos após breve período de comercialização.

Diversos profissionais das áreas médicas e biológicas sabem disso e concordam que o método da experimentação animal, além de cruel, é arcaico e mentiroso. Existem outros métodos para se produzir medicamentos seguros para o ser humano, mas estes não são adotados porque a experimentação animal é, antes de tudo, uma indústria. Um indústria que movimenta muito dinheiro, garante emprego e prestígio a cientistas, publicações em periódicos, além de renda para os criadores de animais e fabricantes de equipamentos.

E isso não é tudo. Tão importante quanto o negócio da vivissecção é o paradigma "científico" por trás do modelo animal. O paradigma dominante na medicina, da experimentação controlada, é do século XIX e já se mostrou obsoleto, no século XX, a partir dos avanços da física: hoje se sabe que a experimentação em laboratório JAMAIS será idêntica à observação do ambiente natural. Isso se chama interferência do pesquisador, que compromete a objetividade do estudo. Em outras palavras: um macaco enjaulado não se comporta da mesma forma que um macaco em liberdade. Mesmo médicos sabem disso, e basta verificar como o comportamento do próprio ser humano é diferente em sociedade ou numa prisão.

Inteligência e recursos são drenados em pesquisas marcadas por um paradigma obsoleto que leva a resultados enganosos. Assim, longe de garantir o "progresso da ciência", como afirmam seus defensores, a vivissecção se funda num atraso que continua se propagando ano após ano, década após década.

E também igualmente importante é questionarmos, afinal, a forma como temos tentado curar doenças por todo esse tempo. O ser humano vive, muitas vezes de forma imposta pelo estilo de vida contemporâneo, exposto a diversos fatores de insalubridade: má alimentação, drogas (legais ou ilícitas), poluição, estresse, insônia, depressão... Nem sempre é possível controlar o grau de exposição a estes fatores. Mas muitas vezes isso é possível. E a alimentação, por exemplo, é um fator decisivo no bom funcionamento do organismo. Depois de passar uma vida inteira explorando animais para se alimentar, o ser humano, envenenado pelas toxinas da carne, busca a solução para uma doença que poderia ter evitado através de um medicamento testado em outros animais. A natureza e os animais pagam o preço da nossa ignorância e arrogância.

E, logicamente, a indústria farmacêutica agradece. Ela vive da doença, não da saúde. Não é inteligente supor que seja do interesse dessas pessoas salvar vidas, curar doenças. E aqui fica claro que também a saúde humana é uma questão social, econômica e POLÍTICA. A vida insalubre que é promovida e imposta a nós é o fator primordial para manter a engrenagem do sistema... e ainda rende lucros através da busca de cura por meio de medicamentos. Antes o milagre vinha da fé. Agora temos a mesma fé cega nos milagres da ciência. E somos incapazes de supor que o mais inteligente é vivermos de modo a não depender de milagres: uma vida livre de toxinas, agrotóxicos, hormônios, drogas e produtos químicos em geral. Uma vida em que, respeitando a nós mesmos, nossos semelhantes e a natureza, poderemos ser mais felizes e plenos.

OBS: Existem várias fontes disponíveis atualmente para quem quiser aprender mais sobre a torpeza da vivissecção e formas éticas de se fazer ciência, tratar doenças, educar novos cientistas. Por favor, antes de afirmar impulsivamente que a vivissecção existe para salvar vidas humanas e o faz com eficiência, pesquise:

http://www.internichebrasil.org/ (Rede que promove a abolição do uso de animais na educação)

http://www.nutriveg.com.br/ (artigo sobre vivissecção)

http://www.fbav.org.br/ (Frente Brasileira Anti-Vivissecção)

http://www.sentiens.net/ (diversos artigos sobre vivisseção)

www.pea.org.br/crueldade/testes/index.htm Link para a lista das empresas que testam e as que não testam em animais. O boicote é nossa arma de luta, não faz sentido sermos contra essas atrocidades continuarmos financiando-as.

Recomendo ainda a leitura do livro recém-lançado "Ética e Experimentação Animal: Fundamentos Abolicionistas", da doutora em ética Sonia Felipe.

sábado, 22 de dezembro de 2007

Deus abraâmico e antropocentrismo*



Estamos em época de festas religiosas. Aproxima-se o Natal, uma celebração de nascimento, vida, paz e amor que, contudo, se dá em meio a uma mesa farta em cadáveres. Nesta época se dá também a peregrinação a Meca, um dos deveres dos muçulmanos, e dentre os ritos desta peregrinação, o sacrifício de animais como meio de reviver o auto-de-fé do patriarca Abraão que, prestes a sacrificar seu próprio filho em nome de Deus, teve este sacrifício impedido no último minuto pela "infinita bondade e misericórdia" divina e, no lugar do filho, sacrificou um cordeiro.

Para leigos, teocentrismo e antropocentrismo são fenômenos distintos. Assim aprendemos na escola: que a Idade Média foi a era do teocentrismo, quando a vida girava em torno da religião, e esse teocentrismo foi abalado pela Renascença, que deu lugar para o humanismo e o antropocentrismo, tão bem resumido no monólogo de Shakespeare:

“Que obra-prima é o homem! Como é nobre em sua razão! Como é infinito em faculdades! Em forma e movimentos, como é expressivo e admirável! Nas ações, como se parece com um anjo! Na inteligência, como se parece com um deus! A maravilha do mundo! O padrão de todos os animais! E contudo, para mim, o que é esta quintessência do pó?” (William Shakespeare, Hamlet, cerca de 1600, tradução minha).

Na verdade, a questão é muito mais complexa que isso. A fé monoteísta de judeus, cristãos e muçulmanos é, de fato, uma das maiores manifestações do antropocentrismo no pensamento humano, como a própria história de Abraão mencionada acima pode comprovar - esta como outras passagens do Antigo Testamento - e, também, uma breve análise de preceitos básicos do monoteísmo judaico, cristão e islâmico.

As passagens da Bíblia sobre a relação com os animais são às vezes contraditórias, e não sendo eu teólogo, não me atrevo a tentar fazer uma interpretação exaustiva e profunda. Basta constatar que a maioria esmagadora da humanidade tem da Bíblia o mesmo conhecimento limitado que eu. E a leitura que esses seres humanos leigos fazem da Bíblia tem levado à justificação do seu domínio sobre os demais animais.

Limitemo-nos, então, ao mais óbvio: a afirmação, no Gênesis (logo, base das três religiões abraâmicas) de que Deus criou o homem à sua imagem e semelhança. Não importa se tomamos essa frase no sentido literal (como fizera Michelangelo em sua famosa representação de Deus da Capela Sistina, que podemos ver abaixo) ou no sentido figurado, de que somos feitos à imagem de Deus porque espelhamos suas qualidades, sua bondade, sua sabedoria, seu amor (teria sido o pecado que teria afastado o homem de Deus e levado à sua natureza imperfeita).



Essa passagem reflete a idéia de que o ser humano é especial, distinto das demais "criaturas", e portanto apto a reinar sobre elas. Afinal, se temos uma natureza divina (ao menos em parte), somos superiores aos demais seres, que sequer alma têm - apenas nós podemos aspirar à vida eterna. Ora, se Deus nos dá uma natureza especial, divina, e nos permite reinar sobre a natureza e os outros animais, fica nítido o conteúdo antropocêntrico do monoteísmo das três religiões abraâmicas.

O antropocentrismo religioso fica mais nítido ainda quando paramos para refletir quem é, afinal, o criador, e quem é a criatura. Não havendo qualquer indício, prova ou evidência lógica e racional incontestáveis da existência de Deus, é justo imaginar que o criador é, muito possivelmente, o ser humano. É o ser humano que cria deuses à sua imagem e semelhança. Por isso os deuses são tão humanos: capazes de extrema bondade, mas também de atos cruéis e vingativos - e quem já leu o Antigo Testamento sabe que crueldade e vingança não são atributos específicos dos deuses pagãos. O ser humano cria deuses para afirmar sua própria natureza divina. Mas nem todas as religiões podem ser consideradas, por isso, antropocêntricas. As religiões politeístas têm, muitas delas, deuses com aparência de animais não-humanos. A crença de religiões orientais na reencarnação, comum, por exemplo, ao hinduísmo, o taoísmo, o budismo e o jainismo, afirma uma integração cósmica em que nenhum ser pode ser considerado superior a outro. Não surpreendentemente, estas religiões estendem aos demais animais os preceitos de não-violência, quando não defendem explicitamente o vegetarianismo. Em algumas culturas, porém, o ser humano separa os demais animais da divindade e da espiritualidade. E não se torna surpreendente que são essas culturas as que mais desrespeitam, exploram, vilipendiam dos demais animais e da natureza como um todo.

O monoteísmo abraâmico, especialmente em sua versão popular, optou por dividir a natureza humana em duas: a boa e a má, que posteriormente separou nas figuras de Deus e do Diabo (Satanás). As aspirações morais do ser humano se tornaram aspirações divinas e a violação das mesmas, atos pecaminosos. Muito freqüentemente os atos imorais são qualificados como bestiais, ou seja, típico das bestas, das feras, dos animais não-humanos. Assim, ao mesmo tempo atribuem nossa moralidade a uma entidade externa - Deus - e nossos desvios morais às "feras" a quem Deus e sua "moralidade" é inalcançável e até oposta. Desse modo, nós acabamos afirmando não apenas nossa superioridade sobre os animais, mas também nos separando totalmente desses. Os animais têm "instintos", nós "razão" e "sentimento", os quais vêm de Deus, e só tangível a nós, que temos alma e fomos criados à sua imagem e semelhança. Isso é não apenas uma negação da nossa própria condição de animais, mas igualmente a negação aos animais não-humanos da posse de qualquer atributo tido como humano, o que mostra que as religiões abraâmicas, além de antropocêntricas, são especistas. Especismo que foi estendido às ciências (cuja origem não está apartada da fé), sob o mito dos animais como seres "autômatos", "irracionais" e puramente instintivos - mito que, embora já refutado pelos próprios critérios da ciência, continua forte no subconsciente coletivo ocidental.

O Deus abraâmico é um Deus antropocêntrico e especista, ou ao menos assim é concebido pela maioria esmagadora daqueles que nele crêem. Por isso, nesta época, os cristãos celebram o Natal, data símbolo da paz, do amor, do nascimento do Messias, matando animais em massa e comendo suas carcaças, sem qualquer indício ou resquício do amor e compaixão que é a pedra fundamental de sua fé.

*Obrigado a Glauber Klein pela revisão e sugestões.

quinta-feira, 13 de dezembro de 2007

Por que Veganismo?


“Quem cala sobre teu corpo, consente na tua morte (...). Quem grita, vive contigo”
Ronaldo Bastos


De tudo o que foi mencionado na postagem anterior resta então a pergunta: o que fazer? Como ser de fato um abolicionista?

Há muito o que se pode fazer pelos animais. Mas o mais básico de tudo, antes de se fazer manifestações, passeatas, panfletagens, pressionar por leis, é se tornar VEGANO.

Veganismo, como defini anteriormente, é o boicote a todo e qualquer subproduto da exploração animal, não só a carne – inclusive a de peixe, que muitos “vegetarianos” admitem –, mas leite, ovos, mel, seda, couro e peles em geral, além de produtos testados em animais. Teremos oportunidade de debater mais detidamente cada um desses itens. Por ora quero dizer por que devemos ser veganos.

POR UMA QUESTÃO DE JUSTIÇA. Me esforcei em demonstrar as injustiças que praticamos contra os animais todos os dias, quando nos permitimos usá-los como a objetos inanimados, sem sensibilidade ou sentimentos. Na pecuária, seja extensiva ou intensiva, industrial ou tradicional, os animais são explorados e mortos, descartados quando considerados inúteis, não há consideração pelos seus interesses. Nos laboratórios os animais passam por sevícias ininterruptas, sendo cegados, queimados, isolados, envenenados, mutilados, manipulados, e justifica-se isso em nome da ciência e do bem-estar da humanidade. Mas que bem-estar é esse que vem às custas de sofrimento?

POR UMA QUESTÃO DE NECESSIDADE. Sendo a exploração animal desnecessária, aboli-la la torna-se, conseqüentemente, uma necessidade. Uma necessidade, inclusive, para o desenvolvimento pleno da humanidade e suas potencialidades. Aprendermos a preservar a natureza e a vida animal não é uma questão sentimental. É uma questão de justiça, como afirmei antes. E também uma necessidade prática: nossas ações predatórias comprometem a nossa existência, e a existência de muitas espécies de animais e plantas. A pecuária é nociva para o meio-ambiente: para criarmos pastos, destruímos florestas, comprometemos a existência de fauna e flora selvagem. Os rebanhos emitem gases do efeito estufa, seus dejetos poluem rios e solo. Não há como alimentar 6 bilhões de seres humanos à base de alimentos de origem animal.

POR UMA QUESTÃO DE CONSCIÊNCIA. É sintomático perceber que o ser humano, que se julga sábio, sensível, sublime, trata os animais com tamanho descaso, desrespeito, desprezo. Será que podemos mesmo aspirar justiça, liberdade, paz, enquanto somos tiranos para aqueles sobre os quais podemos exercer nosso poder? Que tipo justiça existe apenas quando somos impelidos pela lei nos códigos ou livros sagrados a agir moralmente apenas para não sermos punidos ou, em contrapartida, recebermos graças? Só poderemos viver numa sociedade livre e justa quando justiça e liberdade forem valores em si para o ser humano, e não meras moedas de troca, meios para atingir a fins egoístas, sejam esses fins materiais ou transcendentais. Esse ponto foi muito bem ressaltado pelo escritor Milan Kundera em A Insustentável Leveza do Ser, seu mais famoso romance:

A verdadeira bondade do homem só pode se manifestar com toda a pureza, com toda a liberdade, em relação àqueles que não representam nenhuma força. O verdadeiro teste moral da humanidade (o mais radical, num nível tão profundo que escapa ao nosso olhar) são as relações com aqueles que estão à nossa mercê: os animais. É aí que se produz o maior desvio do homem, derrota fundamental da qual decorrem todas as outras. (KUNDERA, Milan. A Insustentável Leveza do Ser. São Paulo: Companhia das Letras, 1999 [1984], p. 325.)

POR UMA QUESTÃO DE COERÊNCIA. Uma vez que tenhamos despertado para uma realidade, precisamos agir em conformidade com o que descobrimos. Conhecimento sem aplicação não tem qualquer valor – é mero exercício estético, soberba, “saber por saber”, egocentrismo. O conhecimento implica responsabilidade. E aí reside simultaneamente a solução e o problema. Solução porque o ser humano deve aprender a ser responsável. Responsável por seus atos, por seus semelhantes, pela sua morada. Mas ele também aprendeu a aceitar sem questionar a realidade que lhe é imposta. Acomodar-se. Nesse sentido, o governo é também uma benesse e uma maldição. Pois o ser humano se sente mais seguro tendo um governo para delegar responsabilidade e pôr a culpa.

É inquietante saber que podemos fazer algo a partir de nós mesmos, no nosso cotidiano, que muitas injustiças dependem apenas de nós para acabarem. Que a preservação do planeta também depende de nós. Que mesmo as relações interpessoais têm muito a ver com o tipo de mudança que queremos no mundo. Não adianta aspirarmos por paz, liberdade, igualdade, se não as praticamos no dia-a-dia, com nossos semelhantes: se somos autoritários, oportunistas, egoístas, aproveitadores, arrogantes, desrespeitosos, possessivos, mesquinhos, manipuladores... como esperar que haja justiça no mundo?

E isso também se refere aos animais não-humanos. Conscientes da exploração de que são vítimas, devemos refletir sobre o que podemos fazer para impedir que esse massacre continue, sob pena de nos tornarmos cúmplices.

É isso que quero fazer com estes textos. Despertar consciências para uma realidade atroz, a necessidade de mudá-la e a possibilidade concreta de, individualmente, fazermos algo para que essa mudança ocorra tão breve quanto possível.

O veganismo nos desperta, assim, para muito mais além da triste realidade da exploração animal: ele nos desperta para o poder transformador e libertário presente no ser humano, em cada indivíduo. Um poder que traz consigo a responsabilidade de agir de acordo com ele: não basta querer que as coisas mudem; é preciso mudá-las em nós mesmos, e assim o fazendo, teremos certeza que estamos contribuindo para que mudem definitivamente em toda a sociedade, em todo o planeta.