terça-feira, 10 de junho de 2008

Leite e Ovos: Escravidão Abjeta



Este texto foi divulgado há alguns meses no Orkut. Após uma revisão, vou publicar no blog onde ele poderá ter mais e novos leitores

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Uma das coisas que mais me surpreende no universo dos direitos animais, e seus defensores, é como ainda se vê, entre vegetarianos, especialmente os que conhecem a realidade da pecuária, quem defenda ou não veja problemas no consumo e produção de leite e ovos, e que hesite tanto antes de aderir definitivamente ao veganismo.

Eu só encontro uma justificativa aparente para isso: as pessoas não vêm essa produção como tão cruel como a de carne, por teoricamente – e apenas teoricamente – não envolver morte. No entanto, é fácil demonstrar que a realidade é muito mais complexa – e terrível – do que parece.

A primeira questão que gostaria de ressaltar é que o consumo de leite é muito mais antinatural que o consumo de carne. Segundo os biólogos, o ser humano evoluiu comendo carne. Na natureza, onde a alimentação é incerta, isso possibilitou a ele encontrar nutrientes concentrados importantes numa época em que não se sabia quando viria a próxima refeição. Além das vantagens que isso trouxe ao indivíduo, beneficiou também o desenvolvimento das coletividades, que puderam prosperar, crescer.

O consumo de leite veio muito depois, quando o homem descobriu que, ao invés de caçar, ele podia criar suas vítimas. Daí a vaca estava lá, prontinha pra ser comida, porque não tirar o leite dela primeiro? Ora, é possível comer carne de um animal livre. Tomar seu leite, nunca. Experimentem ordenhar um mamífero selvagem. Vocês vão descobrir que é mais fácil (e lógico) matá-lo e comer sua carcaça.

Com esta argumentação não estou defendendo o consumo de carne. Com a sedentarização e a agricultura, ela é totalmente desnecessária. Eu estou sim criticando o consumo de leite. Enquanto ordenharmos as vacas, elas nunca poderão ser livres, e esse é, na verdade, o ponto principal.

Isso vale também para os ovos. Na natureza era possível colher ovos de aves. Bastava espreitar seus ninhos. Mas estes eram ovos fecundados, que não entram numa dieta vegetariana. Os ovos que todos consumimos são ovos não fecundados. E para obtê-los, novamente, precisamos de animais domesticados – criados em cativeiro. "Cativo" é outra palavra para seres que são propriedade, que são escravos. Escravos são seres cuja existência é dependente de outro ser para o qual trabalham. É a condição à qual reduzimos vacas e galinhas. Mas voltando aos ovos... Ora, para a galinha dar ovos não fecundados ela não pode ter relações sexuais. Isso significa: nenhum galo por perto. A vaca tem o problema oposto: tem que estar sempre prenhe. Vidas totalmente dependentes e artificiais. Mesmo que sejam criadas soltas, elas continuam reduzidas à condição de coisas. De máquinas de dar ovos e leite.

A realidade das galinhas de granja e vacas de fazenda é mórbida: confinamento, mutilação, hormônios para aumentar a produção, antibióticos e posterior assassinato. Alguém duvida que essa linha de produção é ainda mais cruel que a da carne pura e simples? Seja por causa dos hormônios ou devido à manipulação genética, uma vaca é forçada a produzir artificialmente muito mais leite do que produziria naturalmente. Isso é doloroso. Imaginem uma mulher tendo que dar 12 vezes mais leite do que é capaz: ela ficaria com os seios inchados, teria risco de infecções, teria dores na hora em que fosse “ordenhada”. Agora imaginem que se faça isso sistematicamente com uma mulher, ano após ano. É o que acontece com a vaca – mesmo a que pasta solta. Por isso os bem-estaristas alegam que a vaca precisa ser ordenhada, senão morre – mas se o ser humano cometeu o erro de modificá-la em prejuízo da mesma, isso serve de licença para o ser humano de hoje persistir no erro? Existe mesmo alguma justificativa para isso?

Para concluir, o “argumento” definitivo dos ovo-lacto-vegetarianos e bem-estaristas: podemos ter leite e ovos sem matar vacas e galinhas. Se você continua achando que podemos ser bons senhores sem matar nossos escravos, eu quero dizer que matar é sim parte necessária do processo.

Hoje somos mais de 6 bilhões de pessoas. No mundo ocidental, o consumo de carne, leite e ovos é gigantesco. Para atender a essa demanda a produção tem de ser em escala industrial. A produção industrial não comporta o bem-estarismo.

Explico. Basta tentar estimar quantos litros de leite e dúzias de ovos se vê nos supermercados. Todos abarrotados de leite e ovos, de norte a sul do país, e no mundo inteiro. Milhões de toneladas de leite e ovos. Para termos tanto leite e ovos, precisamos de muitas vacas e galinhas. Para que a humanidade os tenha nessa quantidade absurda, vacas e galinhas, além de ser entupidas de hormônios e geneticamente manipuladas, precisam ser confinadas, para que caibam mais delas em menos espaço. Imaginem o efeito que os hormônios, o estresse, os antibióticos fazem no seu organismo. Será que elas levam uma vida saudável?

Não levam. E elas não consegue levar esse “estilo” de vida adiante por muito tempo. Vacas não são capazes de produzir leite 12 vezes mais do seu organismo fabrica naturalmente por toda a sua vida fértil. O mesmo vale para a quantidade de ovos que as galinhas são forçadas a pôr. Alguém acha que o produtor iria mantê-las vivas por mais 10, 15 anos, depois que não produzissem mais, ou sua produção caísse, sabendo que aquele espaço (ínfimo) que elas ocupam é necessário para obter o leite de outra vaca, e os ovos de outra galinha, ainda férteis? É por isso que, embora uma vaca possa viver mais de 20 anos, e uma galinha, mais de 10, elas são mortas muito antes disso: cerca de 4 anos, no caso das vacas; cerca de um ano e meio, no caso das galinhas. Mesmo que elas pudessem morrer “naturalmente”, o mais provável é que elas não sobrevivessem ao processo. E, se sobrevivessem, teriam uma existência miserável. A demanda nunca acaba.

Além disso, para termos uma nova geração de galinhas, precisamos fecundar os ovos às vezes. Temos mais galinhas do que galos... Alguém imagina o que acontece com os pintos machos, que como os bezerros machos não valem nada para o produtor? Se há alguém que não sabe a resposta, eu a antecipo: bezerros e pintos machos são descartados, isto é: mortos o mais rapidamente possível. Os pintos são triturados e vão parar na ração de animais domésticos. Os bezerros machos podem ser mortos ao nascer: esses são os sortudos. Os azarados irão viver 4 meses em confinamento, no escuro, amarrados, para não desenvolver músculos, e propositadamente subnutridos, para que da sua anemia e fraqueza o ser humano obtenha a carne macia, clara e de baixa gordura conhecida como carne de vitela.

Mesmo que o mundo fosse ovo-lacto-vegetariano, as vacas e galinhas continuariam sendo mortas – como são mortas a maioria das vacas e galinhas criadas soltas hoje. A única outra saída que eu encontraria para que elas tivessem uma vida mais longa seria se o consumo reduzisse drasticamente, a ponto de leite e ovos serem luxos a ser consumidos em datas e ocasiões especiais. Mas ainda assim, elas seriam escravas. E ainda haveria o dilema do que fazer com os machos – se não vamos comê-los, para onde eles irão?

A solução mais lógica e racional é o veganismo. Ser ovo-lacto-vegetariano não basta, se você acredita que os animais merecem respeito.

Mas então porque ainda existem tantos ovo-lacto-vegetarianos? Claro, ainda existem aqueles desinformados a quem escapa a realidade da produção de laticínios e ovos. Mas por experiência própria, como ativista, sei que muitos ovo-lacto-vegetarianos conhecem essa realidade, mas relutam e criam justificativas para não aderir ao veganismo. Infelizmente, eu só posso deduzir uma resposta que explique essa situação. A maioria dos vegetarianos, antes de respeitar os animais, tem natural repulsa pela carne, o que é explicável: é carcaça em decomposição, sanguinolenta e mal-cheirosa. Isso é ótimo para se dar o primeiro passo. Mas é insuficiente para dar o passo definitivo. Alimentos “disfarçados”, como gelatina, leite e ovos, ou alimentos que levam estes ingredientes, são bem tolerados por terem uma aparência menos (ou nada) repulsiva. As pessoas que se dizem vegetarianas pelos animais, mas não conseguem aderir ao veganismo, pelo jeito, têm mais repulsa aos animais mortos do que respeito pelos animais vivos...

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PREVISÃO PARA A PRÓXIMA POSTAGEM: 24 de Junho de 2008.

quinta-feira, 29 de maio de 2008

Periodicidade

Caríssimos leitores:

Fico contente que, mesmo com pouca divulgação, este blog já tenha alguns (poucos) leitores assíduos. Apenas temo que a irregularidade das postagens atrapalhe o acompanhamento das atualizações e eventualmente leve a desistências... Ao criar o blog, eu planejava fazer entradas semanais. Devido à indisciplina e escassez de tempo - ou inabilidade em administrá-lo - poucas vezes pude cumprir esta meta. De modo que agora, para me forçar a ter mais disciplina e também em consideração aos leitores, vou adotar duas medidas:

1. Vou humildemente admitir que minha meta de uma postagem semanal está além das minhas possibilidades, e estabelecer uma periodicidade quinzenal.

2. Para me obrigar a cumprir a nova periodicidade e permitir aos leitores - atuais e futuros - terem uma noção precisa de quando o blog é atualizado, vou incluir ao fim de cada novo texto, a data prevista para postar o próximo.

Excepcionalmente, a última postagem foi feita hoje, uma quinta-feira. No entanto, contarei a segunda-feira como dia da semana de referência. Assim, terei os fins-de-semana para trabalhar nos textos.

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PREVISÃO PARA A PRÓXIMA POSTAGEM: 09 de Junho de 2008.

Veganismo e Etnocentrismo - Final

“Os animais são a última fronteira ética da humanidade”
Laerte Levai

O costume vale mais que a vida, a liberdade e a integridade?

Universalidade de critérios e práticas

Qualquer premissa ética deve ser universalizável. Se usamos critérios diferentes para julgar situações semelhantes, não estamos sendo éticos, e sim promovendo abertamente a injustiça. Quando analisamos as razões pelas quais respeitamos os seres humanos e nos abstemos de infligir-lhes dor e sofrimento, e as razões pelas quais condenamos a escravidão e exploração de seres humanos, percebemos que os fazemos isso pelas seguintes premissas: respeito à sua vida, à sua liberdade e à sua integridade física e psíquica. Porque violar qualquer desses princípios iria acarretar-lhe sofrimento e perdas, violar-lhe a dignidade.

E quando analisamos a questão do uso de animais não-humanos, percebemos nitidamente que este uso também viola a dignidade destes. É muito fácil constatar que animais são igualmente seres dotados de senciência (ou seja, capacidade de sentir dor e prazer), e que, portanto, têm interesse em viver e, em vida, perseguir seus próprios objetivos, sem interferência alheia. Essa verdade, embora alguns ainda sejam ignorantes ou mal-intecionados o suficiente para questionar, já é há muitos séculos apontada por filósofos, biólogos e também por leigos. No século XVIII, Voltaire, ridicularizando Descartes, já dizia: “Responda-me, mecanicista: organizou a natureza todas as fontes do sentimento nesse animal com o propósito de que ele nada possa sentir? Tem ele nervos a fim de que se torne incapaz de sofrer?” (Citado em: Felipe, 2003)

Está claro que todo animal dotado de sistema nervoso central é, por correlação óbvia, dotado de senciência. E que se é errado impor sofrimento, privação de liberdade e morte a um ser humano, isso se deve à sua capacidade de sofrer, não à sua capacidade cognitiva. Fosse de outro modo, não seria errado torturar e matar bebês e pessoas com a capacidade cognitiva afetada, permanente ou temporariamente – pessoas com algum tipo de doença neurológica, congênita, genética ou adquirida com o avançar da idade, comatosos. Assim sendo, também por correlação óbvia, é igualmente errado impor sofrimento, privação de liberdade e morte a um animal não-humano. E qualquer agente moral deve primar pela coerência e racionalidade em suas atitudes, sob pena de estar condenando a si mesmo a ser vítima de duplos critérios que violem seus interesses básicos.

Homegeneidade cultural?

Já me foi perguntado: como fazer com que as diferentes tradições culturais adotem o veganismo? Isso não irá levar ao apagamento das diferenças, impondo uma forma única de viver, trabalhar, se vestir e se alimentar – vegana? A resposta é: não. Como disse anteriormente, é mais fácil acusar o padrão alimentar centrado na carne de etnocentrismo que a filosofia vegana. Se todas as culturas humanas se convencessem da relevância de adotar o veganismo como premissa básica de respeito aos animais não-humanos, elas naturalmente manteriam suas tradições, apenas promovendo adaptações. Basta verificar como, no caso da culinária, já se faz, no Brasil, feijoada, arroz de carreteiro e até pão de queijo em versão vegana, 100% vegetal.

No mais, o movimento vegano atua, primordialmente, no interior de suas próprias fronteiras. Estarei eu sendo etnocêntrico ao dizer a um compatriota que ele pode comer uma feijoada sem carne de porco? As coalizões internacionais mais eficazes funcionam em redes horizontais, em que povos diferentes cooperam, em vez de impor sua própria cultura sobre as demais. Assim, veganos em diferentes partes do mundo promovem adaptações locais à filosofia vegana – absorvendo, naturalmente, a premissa básica do combate ativo à exploração animal. Não há, portanto, qualquer etnocentrismo, nem qualquer risco de homogeneidade no processo.

Uma ressalva deve ser feita apenas nos casos dos povos indígenas. Povos que não contam com as possibilidades da agricultura e da vida sedentarizada, estando vulneráveis à ação da natureza e, de fato, em maior harmonia com a mesma, usam de fato a caça como mecanismo de sobrevivência. Povos pastores nômades são um caso mais complicado: eles de fato criam os animais que consomem, o que é uma flagrante violação dos interesses destes animais. No entanto, estamos longe de sequer poder ter impacto sobre o modo de vida dessas sociedades. Ao invés de usar esses casos extremos como álibi para o relativismo, que tenhamos em mente que devemos trabalhar para difundir o veganismo e o respeito pleno aos animais no interior de nossas sociedades e aquelas que nos estão culturalmente mais próximas, as quais poderiam continuar subsistindo e se reproduzindo muito bem sem fazer uso da exploração animal e seus subprodutos.

Cão doente e faminto em exposição: a arte e a cultura não são valores absolutos

Universalidade e Relatividade

É importante destacar as diferenças entre universalidade (condição) e universalismo (ideologia), relatividade (condição) e relativismo (ideologia). Como condições da existência, a universalidade e a relatividade são ambas inquestionáveis, mas não são onipresentes. Nem tudo é relativo, assim como nem tudo é universal.

Manifestações culturais em geral são relativas, sendo próprias de cada grupo social. Mas em geral se fundam sobre experiências universais – ou pelo menos transversais, uma vez que não existe cultura isolada, nem totalmente original. Assim, matrimônio, relações sexuais, relações de parentesco, relações afetivas, relações geracionais, relações políticas, todas são experiências universais da humanidade. Não existem seres humanos nascidos de “chocadeira” (como os pintos que criamos para nosso deleite); mesmo no caso de crianças órfãs, alguém irá assumir um papel na sua criação e educação, análogo ao dos pais (mesmo que um assistente social). Não existem seres humanos perfeitamente isolados (se existem, são exemplos socialmente irrelevantes, pois a humanidade se constrói... socialmente), e assim estabelecem-se relações de amizade, afeto, negociação, disputa, conflito, etc...

Os exemplos acima são apenas uma amostragem entre inúmeros outros possíveis. São casos de experiências universais que têm diferentes leituras – o que chamamos de cultura. Tais expressões culturais são relativas, ou seja, referem-se a um determinado grupo social e sua cultura. Não se pode afirmar a superioridade de uma sobre a outra a não ser por um critério ideológico, o qual, por sua vez, sendo fruto de um determinado olhar cultural, também é relativo. Ditaduras são passíveis à crítica se adotamos um ponto de vista ideológico da indesejabilidade de uma política que imponha decisões das quais são excluídos a maioria dos cidadãos (independente se adotamos essa postura por príncipio ou por pragmatismo – ou seja, se consideramos o autoritarismo errado ou apenas ineficiente).

Mas isso também não encerra a questão. Não basta adotar uma postura ideológica, dizer que seu sistema de valores não comporta determinada ação, e aqui encerrarmos o debate. A questão do respeito aos interesses básicos, autônomos, dos seres sencientes, também deve ser levada em consideração. Quanto mais nos aproximamos da natureza, mais perto estamos da universalidade, mais distantes da relatividade – quando tratamos de seres semelhantes, como é o caso dos animais, ressalve-se. Quando uma determinada prática avilta a natureza – a dignidade – de um ser senciente sem uma justificativa razoável, podemos sem maiores dúvidas afirmar que esta é uma prática condenável (tal consideração se aplica também ao exemplo acima citado das ditaduras). E SÓ existem duas justificativas razoáveis: a primeira, a preservação de um interesse de outro ser que seja concorrente, mas de natureza semelhante, interesse o qual só pode ser atendido violando o interesse de primeiro ser. O exemplo clássico é o homicídio em legítima defesa. A outra é a preservação de um interesse maior do mesmo ser que sofre a violação. O exemplo clássico é a amputação de um membro para evitar a morte do indivíduo. Ambos sãos exceções, mas as violações são regras; ambas as exceções são raras, e não obstante as violações são constantes...

Em tais casos de violações, a cultura é uma arma política, uma ferramenta de poder usada para deformar, silenciar ou mesmo exterminar a natureza de grupos ou indivíduos – as feministas, que alegam que todo o sistema patriarcal foi construído para controlar as mulheres, sabem do que estou falando. Num caso desses, a cultura mostra seu lado violento e destrutivo. Ao contrário do que afirmam os críticos do veganismo, o estado de necessidade não questiona essa proposição da simetria entre natureza e universalidade: o estado de necessidade É o estado de natureza. Se um homem faminto não tem outra opção senão alimentar-se de uma galinha (suponha-se, os dois perdidos no deserto), a violação dos interesses autônomos da galinha é necessária à preservação da vida do ser humano, que é também um interesse autônomo – e legítimo – deste. Embora uma exceção, esta exceção afirma uma ruptura universalmente válida com o padrão ético de respeito aos interesses autônomos de um ser senciente. O problema é que este exemplo, embora brandido com ares de seriedade, é meramente retórico. Ele não é mais um verdadeiro problema para a imensa maioria dos seres humanos. Mesmo os inúmeros seres humanos famintos existentes hoje, qualquer pessoa bem informada sabe, passam fome por conta de questões políticas, não por causa de escassez de alimentos. Mesmo que vivam em zonas áridas ou semi-áridas, sua fome se deve à má distribuição da renda e da comida hoje existentes no mundo. Para solucionar – estruturalmente – seu flagelo, estes seres humanos fariam melhor escolha ao optar por derrubar seus governos do que por criar animais em cercados.

Conservadorismo e Falsos Universalismos

Uma última acusação comum, vinda dos relativistas, contra quem acusam de universalismo, é a do conservadorismo – os universalistas seriam todos conservadores, autoritários, que mascaram seus interesses particulares sob o véu de valores universais. O problema é que o relativismo também se presta graciosamente ao conservadorismo, como provam as respostas das autoridades chinesas contra aqueles que cobram respeito aos direitos humanos, acusando seus críticos de hipocrisia, imperialismo, preconceito... A defesa de políticas de identidade, justamente por focar a coletividade, podem deixar o indivíduo bastante vulnerável. Como argumentei, além de causar violações de direitos individuais básicos, essa atitude favorece o conservadorismo político, pois toda postura contestatória nasce minoritária, e pode mais facilmente ser silenciada no nascedouro pela violência (individual ou coletiva) ou pela desqualificação política de quem contesta – acusado de traidor, imperialista, hipócrita, preconceituoso...

Em muitos casos, não obstante, a acusação de que o universalismo mascara interesses particulares é válida. Assim o foi no caso da colonização ibérica e no caso do neocolonialismo na África e Ásia, ambos fundados mais ou menos sobre os mesmos valores “universais”: a civilização e a fé. O mesmo vale para o imperialismo norte-americano, fundado sobre o valor “universal” da “liberdade” cujo instrumento indispensável seria a economia de livre mercado. O universalismo de esquerda, porém, também pode ser – bastante – violento e falsamente universal. Aliás, seu apelo pretensamente mais universal, fundado numa pretensa lei histórica (a luta de classes) que tem um único desfecho possível (o fim da sociedade de classes) serviu de estímulo para violações de direitos individuais em escala e intensidade muitas vezes até maiores que os do capitalismo – as ditaduras socialistas da China, União Soviética e Camboja mataram proporcionalmente e em números absolutos mais do que as ditaduras latino-americanas. No entanto, embora seja alegável que a igualdade seja um valor comum a todos os povos, é discutível que o seja da forma como o socialismo a prega, e mais ainda são discutíveis outros valores que o socialismo abraçava, e que propiciaram grostescas violações de direitos individuais básicos – assim, a crítica marxista da religião levou ao sufocamento e perseguição religiosa em diversas ditaduras socialistas, e serviu como um dos argumentos para a invasão do Tibet pela China Maoísta; tais perseguições não assumiram caráter apenas político-ideológico, mas levaram concretamente a desrespeitos à vida, à liberdade, à integridade física e psíquica. Destes exemplos últimos não se infira preconceito ou conservadorismo do próprio autor, sendo eu mesmo um ateu e defensor da igualdade social – mas não pelos métodos usados nos casos citados acima.

Prestemos atenção nos valores ditos universais de todos esses exemplos: a civilização, a fé (cristã, ou a não-fé, não a fé em geral), o liberalismo (político e econômico) e o capitalismo, a igualdade socialista são todos valores CULTURAIS. Não estão fundados sobre experiências sociais, políticas, espirituais, econômicas universais – nesse caso é plenamente cabível a crítica relativista. Entretanto, os veganos se assentam sobre uma questão indiscutivelmente universal em todo o mundo animal: a senciência. Aqui está a força do argumento vegano-abolicionista.

A mais disseminada crueldade cultural de nossa época

Conclusão

Existem, indiscutivelmente, experiências universais – dor, prazer, vida, liberdade – as quais, justamente por serem comuns a todos os seres sencientes, são questões relevantes em todas as culturas, de quaisquer matrizes civilizatórias. São, portanto, canais de DIÁLOGO propícios ao intercâmbio, e não ao silenciamento respeitoso e conformista que existe no relativismo.

Afirmar que existem premissas básicas que, embora com diferentes abordagens, são de fato universais, não implica dizer que todos têm q pensar e agir de forma igual. A diversidade cultural deve ser observada quando analisamos fatos sociais, e ela deve de fato ser respeitada e promovida na medida em que representa formas diferentes de ver o mundo. No entanto, esta diversidade nunca deverá ser brandida para se justificar uma injustiça. Dou um exemplo: ao analisarmos o caso da violência contra mulheres, devemos sem dúvida levar em consideração a cultura em que ela está imersa. Isso vale mesmo para a nossa própria cultura – uma pessoa que cresce num ambiente machista tem valores diferentes daquela que cresce numa casa onde há respeito e igualdade de direitos e tratamento. Mas isso de modo algum faz com que só possamos nos manifestar sobre aquilo que é igual a nós, o que absolutamente nem existe, cada indivíduo é único, e responde de forma diferente a estímulos externos, o quais, mesmo que sejam semelhantes, também são diferentes em diversos pontos, e a leitura que se fará deles é igualmente individual.

A diversidade cultural explica, mas não justifica. Se adotarmos o relativismo como premissa para lidar com as diferenças, logo cairemos na anomia (tudo é permitido) ou na indiferença (não me concerne, não me manifesto), que por sua vez também poderá levar à anomia. Citando o exemplo do nazismo, claro que para entendê-lo é preciso conhecer o contexto histórico e social da época. É importante saber que a Alemanha estava arrasada pela guerra e a crise econômica; que havia um histórico forte de anti-semitismo, e que muitos judeus ocupavam posições de destaque na elite econômica alemã – a qual, por sua vez, se deve à ligação histórica dos judeus europeus com o comércio e as finanças, em razão do fato deles serem proibidos de possuir propriedade. Nesse contexto, os judeus serviram perfeitamente ao propósito de encontrar culpados para a situação calamitosa da Alemanha pós-1918. Mas se abster de emitir juízo de valor a respeito é compactuar com os milhões de mortes que provocou o nazismo – não apenas judeus, mas em toda a guerra e na perseguição a outras minorias e dissidentes políticos. De forma mais ou menos sutil (os campos da morte do Camboja não foram nada sutis), experiências semelhantes ao nazismo aconteceram antes e depois, acontecem ainda hoje. E o nazismo está presente em nossas vidas cotidianas, através do holocausto animal. Foi, aliás, um escritor judeu – Isaac Bashevis Singer, Prêmio Nobel de Literatura – que cunhou a frase: “Em seu comportamento com os animais, todos os humanos são nazistas”.

Na nossa vida cotidiana, para orientar nossa relação com nossos semelhantes – humanos e não-humanos – tudo o que precisamos é de critérios. O do veganismo é bem simples. Conjuga: não promover o sofrimento, respeitar a integridade e dignidade física e moral, a igualdade entre indivíduos e espécies animais, e a liberdade. É um critério lógico e coerente. Não estamos falando de algo que seja incompreensível para outras pessoas, e sim do território comum da racionalidade. Estes critérios são compreensíveis e alcançáveis para qualquer ser humano paradigmático. Pela racionalidade e pelo diálogo, podemos chegar a padrões comuns – universais – de respeito à dignidade do ser humano e do animal não-humano, e de harmonia com a natureza. A racionalidade aqui, entenda-se, é o INSTRUMENTO, e não o CRITÉRIO para o reconhecimento de direitos – um ser humano, se for racional, não irá negar direitos comuns a todos os seres sencientes.

Recusar o relativismo de modo algum implica necessariamente em abraçar o etnocentrismo, nem o universalismo (ideologia), muito menos admitir abusos contra a vida, a liberdade ou a cultura alheias. Aliás, tanto universalismo como relativismo podem atentar contra a vida, a liberdade e a cultura, só que o primeiro por ação e o segundo por omissão. Etnocentrismo seria apelar para um discurso único – direitos humanos, por exemplo – sem tentar o diálogo com outras concepções do que seria o respeito a essas premissas básicas – vida, liberdade, integridade. Em todo caso, no lugar de “universalismo”, prefiro usar o conceito de “cosmopolitismo” e ressaltar q existe relatividade e universalidade no mundo, e que a síntese dialética de ambos reside justamente nesse cosmopolitismo. O cosmopolitismo implica justamente em adotar uma postura de diálogo diante das diferenças culturais, partindo do território comum do pertencimento à humanidade, que possibilita encontrar pontos de acordo e possibilidades de ação conjunta – ou seja, construir um destino comum para a humanidade (sendo o cosmopolitismo uma ideologia antropocêntrica). O desafio dos veganos é expandir essa consciência cosmopolita da dialética relatividade-universalidade para o seu terreno natural: o do mundo animal.

Bibliografia

FELIPE, Sonia T. Direitos Animais. O Recurso à Analogia e a Exigência do Princípio da Coerência na Ética de Tom Regan. Texto apresentado no 3.º Colóquio de Etica Global, UFSC, Florianópolis, Auditório do Centro de Filosofia e Ciências Humanas, 16 de maio de 2003.

FELIPE, Sonia T. Ética e Experimentação Animal – Fundamentos Abolicionistas. Florianópolis: Editora UFSC, 2007.

SANTOS, Boaventura de Sousa. As Tensões da Modernidade. In: Fórum Social Mundial – Biblioteca de Alternativas. Publicado em 29 de agosto de 2002. Disponível em: http://www.forumsocialmundial.org.br/dinamic/boaventura.php. Acessado em 10 de maio de 2005.

Partes anteriores:

Veganismo e Etnocentrismo - Parte I

Veganismo e Etnocentrismo - Parte II

domingo, 6 de abril de 2008

Veganismo e Etnocentrismo - Parte II

Raposa ferida numa caçada. A tentativa de sua proibição, na Inglaterra suscitou debates sobre "direitos civis", "manejo ambiental" e "modos de vida tradicionais"

Assim como todo ser humano é passível de sofrimento, ele é passível de fazer escolhas morais para se abster de promover, ativa e conscientemente, o sofrimento alheio. É a esse bom-senso que os veganos apelam quando defendem que os animais sejam reconhecidos como indivíduos cuja vida, liberdade e integridades devem ser respeitadas. É possível viver bem e com saúde sem explorar animais. Portanto, não hesito em afirmar que viver de outra forma é pura e simplesmente errado. Todo ser que tem a capacidade de sofrer e sentir prazer deve ter sua dignidade respeitada. Os valores da vida, da liberdade e da integridade não podem ser menos importantes que uma tradição arraigada.

Diante de uma afirmação tão categórica, ressurge a questão do etnocentrismo e aparece também a do universalismo. Porque afirmar a prevalência de valores sobre a tradição não implica etnocentrismo? Vejamos separadamente cada uma destas questões.

Respeito aos animais: etnocentrismo eurocêntrico?

É comum, sendo que a defesa do veganismo é particularmente forte nos países ocidentais, sermos acusados de eurocentrismo. Essa acusação chega a ser risível. O consumo de carne é muito mais difundido no ocidente, um padrão cultural nascido na Europa e expandido para todos os países do mundo junto com a expansão capitalista - um dos indicadores usados para medir a prosperidade de um povo é sua ingestão de proteína animal. Logo, é o carnivorismo que pode ser mais associado à imposição de um padrão de vida e pensamento eurocêntrico (por "carnivorismo" me refiro à expansão do consumo de carne e sua centralidade na dieta humana; não uso o termo de forma irônica ou para ressaltar que haja algum tipo de carnivorismo estrito entre seres humanos). A maioria dos povos e religiões indo-asiáticos são muito mais próximos da cultura vegana, e há mesmo quem afirme que a filosofia do vegetarianismo chegou à Grécia Clássica por influência das religiões orientais. Budistas, hinduístas e jainistas estendem o princípio da não-violência aos animais, e por isso muitos deles são adeptos do vegetarianismo. Os jainistas, aliás, são a cultura onde o vegetarianismo estrito é mais praticado.

Também é importante notar que as culturas não ocidentais, mesmo produtoras de suas próprias barbaridades, têm uma visão muito mais integrada da natureza, o ser humano e os animais. Enquanto a sociedade industrial moderna vê os animais como máquinas de quem se extrair secreções e carne, as sociedades pré-modernas, mesmo quando fazem uso dos animais, reconhecem neles sujeitos merecedores de respeito. Em diversas culturas os animais podem encarnar divindades ou ser vistos como parte de um ciclo evolutivo espiritual (que, não obstante, coloca, naturalmente, o ser humano no topo do mesmo), enquanto a tradição religiosa ocidental afirma que os animais não têm alma, e que não lhes temos quaisquer deveres (pensamento herdeiro da escolástica medieval) e, na tradição secular, eles são autômatos desprovidos de sentimentos, interesses ou inteligência (pensamento herdeiro de Descartes). Percebe-se, portanto, que o pensamento moderno ocidental é um dos mais – senão o mais – nocivo à noção de respeito aos animais; que é o principal responsável pela difusão e expansão em escala industrial de diversas modalidades de exploração animal, muitas das quais não existiam em outras culturas – em países como o Japão até hoje não se tem o hábito de beber leite, por exemplo. Como ainda é possível sustentar a idéia de etnocentrismo eurocêntrico na defesa da libertação animal?

Solidariedade seletiva

A verdade é que todas as culturas têm alguma prescrição sobre o respeito que se deve dispensar aos animais. O problema é que o consumo de carne, leite e ovos, e a criação de animais para abate geralmente não entra nessa conta, muitas vezes por ignorância, outras por egoísmo. Matar animais para comer não é considerado cruel, numa demonstração de incoerência e cinismo comparáveis à aplicação da pena de morte nos Estados Unidos, apesar da condenação expressa de sua Constituição contra penas cruéis – a justificativa é que a pena de morte não seria cruel.

Os seres humanos costumam ser seletivos quanto a quem prestar solidariedade, e muitas vezes o fazem a partir de cálculos egoístas, não abrindo mão da menor comodidade, se isso for contribuir para a vida e a liberdade de outro ser senciente - isso é verdadeiro para outros seres humanos, não é surpreendente que o seja para outros animais. Eles também são seletivos quando a solidariedade se presta a indivíduos que não partilham de seus próprios princípios – os quais, por sua vez, muitas vezes mascaram interesses, de modo que a fronteira entre o primeiro e o segundo caso nem sempre é fácil de traçar.

Desse modo, os socialistas prestam solidariedade aos perseguidos políticos, torturados, executados e famintos vítimas do capitalismo. Subitamente, porém, pessoas que sofrem dos mesmos males em países socialistas não são dignas de solidariedade. Na China e na União Soviética, as tragédias não foram apenas políticas. Houve também fome e destruição do meio ambiente. Em conversa com defensores do socialismo real, os mesmos argumentos são brandidos: essas pessoas não são vítimas, mas inimigos de classe, que em circunstâncias excepcionais podem – e devem – ser sacrificados em nome da coletividade; essas tragédias são questões menores na construção da nova ordem justa e igualitária; elas foram amplificadas e exageradas pela “mídia burguesa”; esses países eram vítimas de campanhas e crises de desestabilização internacional, cujo gerenciamento exigiam atitudes excepcionais.

A direita não é pior: para preservar seus valores e interesses, promovem guerras, apóiam golpes de Estado e condenam populações à fome e à miséria. Também regimes conservadores sofrem do mesmo tipo de incoerência cínica: basta pensar em como o governo de George W. Bush viola direitos fundamentais, não apenas no Iraque, mas em Guantánamo e nos Estados Unidos, prendendo sem mandado, limitando o acesso a advogados, torturando – e ao mesmo tempo se diz defensor da liberdade e da democracia. Quando questionado, a resposta é parecida com a dos socialistas reais: os EUA vivem em estado de guerra e ataque do exterior, os quais forçam e justificam medidas de exceção.

Essa postura é o que eu chamo de “relativismo seletivo”: os erros do inimigo são absolutos e os direitos dos aliados, inegociáveis. Quando a situação se inverte, é porque bons motivos os justificam.

Você tem idéia da brutalidade necessário para domar um elefante?

Respeito aos animais: questão universal

Tratemos agora do universalismo.

Existem fenômenos universais: o amor, a dor, o prazer, a alegria, a tristeza, não são fenômenos culturais. Não são sequer fenômenos humanos. Um pequeno exemplo pode ser usado para ilustrar esse fato: elefantes que são capturados para “trabalharem” em circos ou no transporte em países asiáticos. Esses animais são submetidos a isolamento e maus-tratos para serem “domados”. Passam suas vidas distantes de seu habitat natural e separados de seus parentes – sendo o elefante um animal social. Podemos mesmo relativizar o sofrimento deste animal? Será mesmo que a crueldade intrínseca na exploração de sua força ou habilidades é relativa? Será que a tradição do uso de elefantes como transporte e arma de guerra – algo semelhante ao papel histórico do cavalo na Europa – é mais importante que o respeito à dignidade deste ser?

Tratar fenômenos universais como tal é entender que é possível compreender o outro, desenvolver empatia e, nesse processo, reconhecer sua dignidade e os direitos inalienáveis que esta lhe atribuir. Reconhecer a existência de fenômenos universais não precisa ser um signo da imposição de valores externos. Isso acontece quando se confunde a universalidade com o universalismo, a ideologia que promove a defesa de valores universais, a qual implica uma prescrição militante que resulta na separação do outro ou sua conversão.

Existe um elemento universalista na defesa do veganismo, da mesma forma que existe um elemento universalista na condenação unânime da escravidão humana. Todos os países condenam a escravidão humana como crime. Embora a escravidão tenha sido abolida por uma campanha ocidental, à qual podemos sem dúvida atribuir muita hipocrisia e muito etnocentrismo, seria hoje absurdo defender um retorno à época em que a escravidão humana era socialmente aceita em determinadas sociedades. Aqui, cabe ressaltar que a abolição da escravidão humana, não obstante os fins nada nobres que a motivaram, só foi possível justamente por haver esse ponto comum que possibilitou a tradução e reinterpretação do conceito de liberdade ocidental, iluminista, liberal e universalista. Algo que não foi possível, por exemplo, com as tentativas de supressão da religião na União Soviética ou China – idéias que não possuíam qualquer base social ou lógica, sendo a espiritualidade uma outra característica universal da humanidade.

Embora a filosofia dos direitos humanos seja ocidental, e dela derive em grande medida a filosofia contemporânea dos direitos animais, todas as culturas têm concepções que versam sobre a dignidade humana e, da mesma forma, sobre a relação com os demais animais, como vimos acima – muitas delas muito mais avançadas que a concepção ocidental dominante de matriz cristã-cartesiana.

O respeito aos animais é uma questão consagrada do mundo contemporâneo, embora de forma enviesada, tendenciosa, buscando preservar a exploração dos animais não-humanos. Mesmo onívoros militantes, a não ser que extremamente sádicos, concordam que não se deve tratar animais de forma cruel nem maltratá-los sem necessidade. A maioria se indignaria com casos flagrantes de injustiça contra animais vítimas de violência física ou assassinato por inanição – como aconteceu, respectivamente, com a cadela Preta, no Rio Grande do Sul e um cão numa exposição de "arte" na Nicarágua, casos que extrapolaram a comunidade vegetariana em termos de indignação.

Mas nem só fenômenos são universais. Todas as culturas têm suas concepções de dignidade e direitos. Vida, liberdade, integridade, dignidade não são conceitos puramente ocidentais – afirmar isso sim, seria etnocêntrico. São conceitos igualmente universais. Embora possam ser interpretados de formas distintas, são comuns ao ser humano. Dessa constatação é possível auferir a mesma conclusão: a universalidade não implica em imposição, mas em possibilidade de diálogo. Sua premissa: o respeito ao outro.

Tal diálogo não é apenas possível, mas igualmente necessário. Através do diálogo e da racionalidade, os seres humanos podem se entender e chegar a um acordo. Seria um diálogo intercultural que partiria, segundo o sociólogo Boaventura de Sousa Santos, de duas premissas: a tradução e a hermenêutica diatópica. A primeira afirma que as práticas e conhecimentos de diferentes culturas devem ser “traduzidas” para que sejam compreendidas em suas diferentes interpretações. A segunda afirma que idéias básicas de uma cultura – seus “topoi” – devem ser tratadas como premissas argumentativas, em vez de lugares-comuns inquestionáveis. A partir destas atitudes, pode-se encontrar zonas de contato que possibilitem o entendimento e o trabalho conjunto. Santos adverte, entretanto, que tal diálogo pode em nada avançar na compreensão e respeito pelo outro se não se observar um critério básico: “das diferentes versões de uma dada cultura, deve ser escolhida aquela que representa o círculo mais amplo de reciprocidade dentro dessa cultura, a versão que vai mais longe no reconhecimento do outro” (SANTOS, 2002). Ou seja: o estudo de Santos tem origem oposta ao do relativismo. Em primeiro lugar, ele rejeita a idéia de que as culturas sejam unívocas e imutáveis; rejeita que não se pode estabelecer um diálogo entre culturas; e, por fim, declara que é o pensamento mais abrangente no respeito à alteridade que deve ser buscado para o diálogo – o que implicaria dizer, é o pensamento que dá voz ao oprimido, não ao opressor; à adúltera, não ao apedrejador. Ao touro, não ao toureiro.

Mais uma cena da moderna exploração industrial: o descarte de vidas inúteis para o explorador

A resposta para a tensão entre relativismo e universalismo tentarei dar na parte final do texto:

Veganismo e Etnocentrismo - Final

Primeira parte do texto: Veganismo e Etnocentrismo - Parte I

domingo, 30 de março de 2008

Veganismo e Etnocentrismo - Parte I

Cães criados por sua carne, na China: nem melhor, nem pior. Igualmente bárbaro.

Não é incomum nos depararmos com esta acusação, quando defendemos o veganismo: afirmam que comer carne é uma questão cultural, e que tentar mudá-la não é apenas autoritário, mas também etnocêntrico (ou seja, a imposição da própria cultura sobre as demais). Hoje gostaria de desmistificar essa idéia.

O buraco negro do relativismo

Essa questão incorre, inevitavelmente, na armadilha do relativismo cultural, o qual afirma que todas as culturas são relativas e se equivalem.

Respeitar as diferenças culturais não significa sacralizá-las nem considerá-las imutáveis - o que é uma interpretação conservadora que não combina com o discurso, em geral progressista, dos que apelam para o relativismo cultural como princípio, e não ferramenta de análise. O que os relativistas não entendem é que equivalência não exclui a incompletude. Todas as culturas são incompletas. Apontar tais incompletudes não é manifestação hegemonista ou preconceituosa.

O relativismo cultural se apresenta em círculos cada vez mais próximos do indivíduo. Consideram que não podemos criticar culturas de outra matriz civilizacional (ex: ocidentais não podem criticar orientais ou indígenas). Depois, consideram que não podemos criticar outros países, mesmo que da mesma matriz civilizacional (brasileiros não podem criticar, digamos, as touradas espanholas). Daí a coisa se estende para regiões do mesmo país, pessoas de outras classes sociais, outro sexo, outra geração até que, finalmente, talvez não tenhamos o direito de criticar ninguém além de nós mesmos, numa ditadura do acriticismo relativista politicamente correto.

O que tais pessoas não entendem é que é impossível viver sem fazer julgamentos, emitir opiniões. Fazemos isso o tempo todo, e não há nada de necessariamente errado nisso. Também não entendem que a cultura não é imutável, e que suas transformações muitas vezes se dão pela luta ativa por mudanças, não apenas por uma suposta evolução interior sem atropelos. Embora a cultura - como os indivíduos - só mude através da aceitação geral de novos paradigmas, diálogo e o convencimento são ferramentas necessárias no processo e que, aliás, são usadas por todos, o tempo todo.

Alegar que a carne deve ser respeitada por ser cultural equivale a dizer que devemos respeitar atrocidades do passado e do presente. Pena de morte, tortura, mutilação genital (masculina e feminina) são práticas existentes e socialmente aceitas ainda em muitas culturas. Isso sem mencionar questões como a opressão feminina, o racismo, a homofobia, que com variações, são provavelmente universais. Seria errado condená-las como bárbaras por acontecerem fora do meu círculo social?

Por fim, o relativismo é uma atitude que se auto-anula: se eu me declaro incapaz de julgar qualquer opinião, como posso condenar atitudes que considerar absolutistas? Se todas as práticas e opiniões são relativas, como eu posso condenar pessoas que lutam contra determinadas atitudes que elas consideram injustas (criação de animais, tortura de seres humanos, apedrejamento de adúlteras)? Afinal, se tudo é relativo, também a relatividade é relativa. Se devo respeitar toda e qualquer opinião, devo também respeitar a opinião de quem combate tais atrocidades. Então, o relativista se mostra, na melhor das hipóteses, incoerente.

Se a questão é tão somente se manifestar contra atitudes e opiniões expressas em outro tempo e outras culturas, deveríamos nos questionar se as culturas são estanques, incapazes de dialogar entre si – o que é, obviamente, uma mentira. Nenhuma cultura vive isolada. Deveríamos igualmente nos questionar sobre a adoção seletiva de idéias estrangeiras: se o capitalismo, o nacionalismo e o socialismo são adequados para outras culturas, por que não o respeito aos direitos individuais?

Dor e sofrimento não são relativizáveis

É comodismo e covardia apelar para o relativismo diante de violações flagrantes dos direitos individuais básicos - liberdade, vida, integridade. Dor é dor, não é algo relativizável. Quem o faz, geralmente faz com pessoas distantes, no espaço e/ou no tempo, o que nos desobriga do exercício da empatia. É muito fácil fechar os olhos para um injustiça praticada longe de nós, sem sequer sentir um pouco de culpa pela nossa indiferença.

Todos os seres humanos têm o mesmo interesse na sua dignidade e integridade, moral e física. Quem acha que não devemos criticar pessoas que apedrejam adúlteras e mutilam mulheres deveria imaginar como seria conversar com essas mulheres para saber o que elas pensam de seu destino. Mesmo se alguma delas se manifestar conformada, ainda devemos defender o seu direito, e também de todas as outras. E se apenas uma se mostrar inconformada – o que é inevitável –, é porque aquela experiência cultural não pode ser absolutizada, universalizada. A crítica torna-se, então, não apenas possível, mas justa e necessária.

Ave hiper-alimentada, à força, para produzir "iguaria" francesa: foie gras

Cito um exemplo de um caso que acontece numa cultura distante não porque não haja exemplos gritantes de injustiça e violência na nossa cultura ocidental judaico-cristã, e sim para demonstrar que violações de direitos básicos cometidas em outras culturas podem - e devem - ser criticadas. Os povos islâmicos que ainda praticam o apedrejamento e a mutilação genital feminina, igualmente, têm pleno direito de apontar injustiças nas sociedades ocidentais judaico-cristãs. Da mesma forma, nunca me sinto ofendido quando um estrangeiro denuncia violações de direitos fundamentais praticados no Brasil (trabalho escravo, prostituição e trabalho infantil, tortura, grupos de extermínio, dentre outros absurdos que infelizmente nos são comuns). O que não pode acontecer – mas geralmente é o que ocorre – é uma coletividade usar os erros de outra como álibi para desqualificar as críticas recebidas e se desobrigar de trabalhar por mudanças.

A radicalização do relativismo cultural nos levará, um dia, a afirmar a impossibilidade de criticar injustiças aberrantes e indiscutíveis, como os campos de concentração nazistas, os gulags soviéticos, os Campos da Morte do Camboja, o colonialismo e diversas outras modalidades de genocídio. Isso se torna uma atitude previsível, a continuar prevalecendo o relativismo absoluto (uma contradição em termos!), especialmente à medida que essas experiências mencionadas se distanciam no tempo e os relativistas ganham outro "argumento": o de que julgamos esses eventos com olhos contemporâneos, incorrendo em anacronismo.

O que fazer?

Os relativistas gostam de nos acusar de defender uma ditadura que apaga as diferenças culturais, quando na verdade são eles que partem do errôneo pressuposto da homogeneidade cultural de civilizações, países, classes sociais, etc. Visões divergentes sempre existirão. E nesse universo de inúmeras possibilidades, é o ponto de vista que demonstra maior empatia pela vida, dignidade, liberdade do outro que deve ser defendido. Nosso compromisso, portanto, não deve ser nunca com a absolutização da cultura - que é sempre, aliás, a cultura dominante - que justifica a opressão, mas sim com aqueles oprimidos, violentados, vulneráveis. O compromisso com a liberdade e justiça para quem sofre.

Claro que a ferramenta para lutar contra a opressão nunca passa pela simples imposição, até pelo fato de que ela não é uma forma de mudança efetiva. Empreender guerras preventivas ou "humanitárias" não é uma solução viável para mudar a realidade, inclusive do ponto de vista estratégico. Quando uma injustiça acontece sob nossos olhos, devemos intervir. Mas se ela acontece do outro lado do planeta, promovida por pessoas com outros valores e outro idioma, esse tipo de ação direta se mostra inadequado, ineficaz, perigoso. Mas isso não é uma licença para silenciar: os indivíduos têm sua voz, seu poder pessoal de boicotar, de dialogar, de irradiar, para combater injustiças cometidas por governos, corporações ou indivíduos; e pressionar seus governos para igualmente denunciar e boicotar as injustiças – como no caso atual das Olimpíadas de Pequim, que deveriam ser boicotadas pelos governos, atletas e pelo público. Neste último caso, medidas individuais fariam muita diferença: não comprar produtos chineses, não comprar de patrocinadores dos Jogos de Pequim, não assistir às competições, não viajar para a China, seja para turismo comum, seja para assistir aos Jogos (no caso daqueles que têm recursos e que planejam fazê-lo).

A melhor forma para se encarar as injustiças e as flagrantes violações de direitos individuais básicos não é nem o silêncio nem a imposição, mas o diálogo. Especialmente no caso de diferentes culturas. O diálogo intercultural permite explorar pontos de contato, apontar falhas e incoerências mútuas. Deve-se buscar a cooperação entre indivíduos cujos pensamentos se completam, independente das raízes culturais e fronteiras nacionais. Por isso os defensores dos direitos individuais básicos devem estabelecer canais de diálogo com os que lutam contra a opressão nas diferentes partes do mundo. E por isso os governos gostam de acusar grupos dissidentes de traição à pátria – especialmente os regimes autoritários.

Ocidentalíssima criação de porcos: por que só a estupidez pode ser universal?

Na próxima postagem, explicarei como esta lógica se estende ao veganismo e à libertação animal:

Veganismo e Etnocentrismo - Parte II

segunda-feira, 24 de março de 2008

Na Natureza Selvagem: uma Jornada Violenta, Incoerente e Equivocada


"Na Natureza Selvagem" ("Into the Wild", em inglês) é, sem dúvida, o filme a se boicotar na temporada. Há tempos não via um filme tão equivocado, superficial, contraditório e, por fim, desprezível na sua condução visual e narrativa. Qualidades que pertencem também à história verídica em que se baseia.

Não se trata de questionar o talento do diretor, Sean Penn, que consegue boas tomadas, desenvolve a história em capítulos e flashbacks bem amarrados e extrai uma performance indiscutivelmente brilhante do ator principal, Emile Hirsch. A qualidade da trilha sonora eu já considero discutível, assim como alguns ganchos do filme - como quando um discurso do presidente americano George Bush (o pai) defendendo a Guerra contra o Iraque (a primeira, em 1991) é usado como paralelo para a decisão do personagem central de agir, em vez de esperar os acontecimentos. O problema maior, entretanto, são as idéias contidas e transmitidas no filme.

Inevitavelmente a história de Christopher McCandless iria, um dia, ser levada ao cinema. Ela é real, mas cheia de elementos cinematográficos: fugindo de uma infância traumática, escolado pela ganância e carreirismo dos pais, McCandless, um jovem com futuro promissor, larga a sua vida confortável e foge sem dar notícias, em busca de uma vida "simples", de contato com a natureza, numa jornada que o levaria ao Alasca.

O problema é que McCandless parece movido pelas razões erradas, o que lhe leva a escolhas igualmente erradas. Na tela, porém, o que se busca ressaltar é seu idealismo. Uma análise criteriosa, no entanto, e especialmente do ponto de vista abolicionista, revela as inconsistências do idealismo de McCandless e os equívocos a que ele o levou.

A impulsividade e revolta juvenil do protagonista, embora com motivações legítimas, contra o sistema e a própria família, o levam a uma jornada que deveria ser de auto-conhecimento, mas se torna destrutiva - destrutiva da família, incluindo a irmã, também vítima da violência familiar, e por fim também vítima da fuga do protagonista, sofrendo sem saber o destino do irmão; destrutiva da natureza; e destrutiva de si mesmo, num final que mostra, possivelmente sem se dar conta, o quanto o ser humano se afastou da natureza e não se encontra, portanto, preparado para retornar ao seu seio apenas por um golpe voluntarista.

McCandless é um fugitivo da civilização, mas sua revolta, canalizada para a fuga e a marginalidade, em nada contribui para uma crítica prática e realmente radical da mesma. Em suas andanças, ele trabalha em uma moderna colheita e uma rede de fast food, pega carona em trens e com motoristas em autoestradas, além de fazer constante uso de um rifle moderno para caçar. Ou seja: sempre que possível, McCandless que, idealista, queima o próprio dinheiro e abandona o próprio carro, não consegue escapar verdadeiramente da modernidade industrial. Ele constantemente se vale dela ao mesmo tempo em que a critica, uma atitude de eficácia e coerência questionáveis. De libertário e radical, McCandless não tem nada - é apenas um rebelde que não sabe o que fazer nem como canalizar sua justa indignação. E como é comum nessas situações de rebeldia ignorante e militante, quem sofre são indivíduos que nenhuma relação têm a indignação original - nesse caso, os animais selvagens.

O pior de tudo é mesmo a "comunhão" de McCandless com a natureza. Rifle a tiracolo, são inúmeras as cenas de caçadas e é sintomática - e abjeta - a centralidade que elas têm na história - com direito a uma longa e nauseante seqüência de desmembramento de um alce. Em uma cena anterior, um personagem ensina McCandless - e o espectador - a preservar a carne dos animais que caçar. Como o "supervagabundo" (codinome que o protagonista adota em sua fuga) consegue o rifle de caça moderno, não se diz. Talvez não seja conveniente à mensagem do cineasta-ativista Sean Penn. Comprado, ganhado ou roubado, o rifle não contribui para o contraponto que o diretor pretende fazer (civilização decadente X retorno à natureza). Pelo contrário, destaca, inconscientemente, o elo que existe entre os dois mundos que ele contrasta: uma sociedade em que adquirir uma arma de fogo é extremamente fácil; o culto norte-americano ao andarilho armado, solitário, aventureiro e destemido que forjou essa "grande" nação; e a violência que este culto enseja. Isso fica patente mesmo na obra de um crítico da sociedade norte-americana, como Penn, que mostra não conseguir enxergar a relação com a natureza senão como a de um homem armado matando animais selvagens. No final, o contraste se mostra, portanto, absolutamente falso.

Tampouco McCandless parecia conseguir enxergar as contradições embutidas na sua aventura. Ele não consegue sequer romper com o paradigma carnívoro da civilização ocidental - o filme, aliás, é pródigo em cenas de conversas em torno de pratos recheados de cadáveres, e conta ainda com a participação de um artesão de couro, ofício que McCandless se mostra feliz em aprender. Por fim, o protagonista paga o preço de seus equívocos. Apenas depois de faminto, sem animais por perto, ele finalmente decide estudar a flora local para descobrir frutos, folhas e raízes comestíveis - que seriam a base alimentar de qualquer sociedade caçadora-coletora. Tal conhecimento seria tradicional e transmitido geração após geração numa sociedade que vivesse em verdadeira comunhão com a natureza, mas ele não se dá ao trabalho de pesquisá-lo até o momento em que sua estratégia caçadora fracassa. O final demonstra, portanto, que McCandless não conseguiu escapar o suficiente da civilização para sobreviver, e sucumbe às suas próprias contradições e incoerências, e da sua incapacidade de cumprir seu propósito de se desligar do mundo moderno e viver com simplicidade. Esse acontecimento - real - mostra, na trajetória de um indivíduo, a separação de toda a humanidade da natureza.

No final, fica a dúvida se o retrato feito do protagonista - em geral simpático - contribui, em qualquer nível, para a crítica de suas falhas graves de atitude e percepção no que se refere à família, à sociedade, à natureza. Mesmo que seja possível fazer essa crítica, ela não salva o filme. A naturalização da relação violenta com os animais não permite. Nenhum abolicionista deve cometer o mesmo erro que eu, e dar dinheiro para este absurdo.

quarta-feira, 19 de março de 2008

Agradecimento

À minha miguxa Rachel Siqueira, o fake mais autêntico da internet, por ter me ajudado a melhorar a interface do meu blog e cedido, gentilmente, a BELÍSSIMA foto que lhe serve de imagem de apresentação.

Obrigado, Chel. Te adoro!

Aproveito e divulgo o blog que ela divide com outras duas amigas, a Emanuelle (Manuka) e Janaina (Jan Jan):

http://sandubavegano.blogspot.com

Crítica à Declaração Universal de Bem-Estar dos Animais


Já há mais de um ano tem circulado na internet pedidos de apoio à Declaração Universal de Bem-Estar dos Animais - ainda em fase de rascunho, podendo ser alterada sem aviso prévio aos signatários. Quero crer que a adesão em massa de vegetarianos a essa Declaração se deva à ingenuidade, mais que à concordância. Muitos vêem a frase "Para mim os Animais Importam" que geralmente acompanha a divulgação do documento, e podem se deixar enganar. Outros não estão ainda familiarizados com os debates sobre as questões animais - os mais escolados sabem que "Bem-Estar", um termo que parece encerrar coisas boas, na verdade carrega implícita a idéia de que não é a liberdade que conta, mas apenas o conforto. Animais em jaulas confortáveis esperando a inevitável violação de sua integridade física e/ou psíquica, uma vez já violado seu direito básico à liberdade.

Outro engano possível é supor que o bem-estarismo, a redução do sofrimento, é uma fase necessária no processo de libertação animal. Na verdade, enquanto lutarmos pelo bem-estar, por definição, não estaremos lutando pela libertação. Não se pode chancelar e condenar a exploração ao mesmo tempo. E o bem-estarismo nitidamente chancela a exploração, constatação que aflora límpida da análise desse documento.

Quero, então, fornecer elementos à crítica e, portanto, repúdio completo à Declaração Universal de Bem-Estar dos Animais, promovida pela World Society for the Protection of Animals (WSPA, Sociedade Mundial de Proteção Animal), uma entidade assumidamente bem-estarista, de raízes anglo-americanas, surgida em 1981.

A Declaração não se dispõe a condenar qualquer das formas de exploração animal listadas - sem dúvida as mais disseminadas em todo o mundo. Inclusive aquela que é, possivelmente, a mais bárbara de todas: a vivissecção. Ela tão somente pede que a exploração seja feita observando critérios (nem mesmo limites: apenas critérios de bem-estar). Destaco alguns trechos que tornam indiscutível o respaldo que ela dá à exploração animal:

RECONHECER que a utilização de animais por parte dos humanos pode reverter em benefícios importantes

Ninguém pode afirmar que a escravidão é justa quando rende benefícios ao escravista. O que importa é que a escravidão rende inequívocos malefícios ao escravo.

RECONHECER que (...) os vegetarianos desempenham um papel importante na conservação quer da saúde, quer do bem-estar animal

Este trecho disfarça, sob o manto da suposta exaltação, uma minimização da importância do vegetarianismo. O veganismo – que é o vegetarianismo estrito (sem nenhum alimento de origem animal) somado ao boicote de outros produtos resultantes da exploração animal – é a base inegociável de uma atitude de coerência e respeito em relação aos animais. Enquanto houver seres humanos que se alimentem dos animais e suas secreções, não é possível preservar a saúde e o bem-estar dos mesmos, menos ainda a sua liberdade. Assim, o vegetarianismo e mesmo o veganismo são meros paliativos enquanto ainda houver exploradores. E mesmo o veganismo só terá efeito sobre a vida dos animais quando for adotado por toda a humanidade, ou por uma maioria capaz de levar adiante a abolição da exploração animal.

RETER que as "cinco liberdades (livre de fome, de sede e de má nutrição; livre de medo e de perigo; livre de desconforto físico e térmico; livre de dor, ferimento e doença; e liberdade para expressar padrões normais de comportamento)" e as "três medidas (redução do número de animais, aperfeiçoamento dos métodos experimentais e substituição dos animais nas técnicas utilizadas)" facultam uma orientação valiosa para a utilização de animais

Ora, todas essas liberdades são diretamente atacadas, de modo evidente, pela pecuária, pelo abate de animais para alimentação e pela vivissecção - além das outras formas de escravidão. É muito fácil demonstrar que mesmo que as cinco liberdades sejam respeitadas ao longo da vida do animal - o que é altamente improvável -, elas serão imediatamente e irrevogavelmente violadas no momento do abate ou da vivissecção. Logo, a Declaração é incoerente, se não hipócrita. As três medidas, ou 3 Rs (dos termos no inglês, "reduction", "refinement", "replacement"), por sua vez, existem já há quase 50 anos - foram formuladas em 1959, na Grã-Bretanha. De lá para cá o número de animais empregados em laboratório apenas aumenta, o que mostra a total falência do paradigma bem-estarista e sua incapacidade de atingir os próprios objetivos reformistas. Mais que isso, demonstra que o reformismo apenas existe para aprimorar a exploração animal. Por fim, o trecho "orientação valiosa para a utilização de animais" não deixa dúvidas. A Declaração afirma que com regulamentação e observando-se certas premissas, a exploração animal é aceitável, e esse pensamento nunca levará ao fim da exploração e, longe de proteger os animais, chancela, em última instância, os maus-tratos e a crueldade que são intrínsecos a atividades como a pecuária e a vivissecção. É, portanto, uma Declaração que sofre de má-formação congênita pois torna os animais vulneráveis no mesmo momento em que os pretende proteger.

3. Os [estados] devem empreender todas as medidas adequadas para evitar a crueldade para com os animais e para reduzir o seu sofrimento

Se o sofrimento requer redução, está implícito o reconhecimento de que ele será, em algum momento, promovido. Em contraste com esta Declaração bem-estarista, uma Declaração abolicionista assumiria o compromisso não de reduzir, mas de abster-se de promover qualquer tipo de sofrimento deliberado e desnecessário ao animal não-humano, só sendo legítimo causar algum dano quando para protegê-lo de um sofrimento maior, e não para atender a interesses alheios.

4. As normas adequadas para o bem-estar dos animais devem continuar a ser desenvolvidas e elaboradas, tais como, mas não só, as que dizem respeito à utilização e gestão de animais de quinta, animais de companhia, animais utilizados em pesquisas científicas, animais de carga, animais selvagens e animais para fins recreativos.

Aqui fica claro que não há qualquer condenação de nenhum tipo, nenhuma crítica fundamental, de base, à exploração animal como um todo ou a alguma modalidade de exploração animal em particular.

Em conclusão, pode-se dizer que esta Declaração não atende a nenhum interesse fundamental dos animais não-humanos, mas tão somente ao interesse egoísta do ser humano em continuar explorando-os, promovendo um suposto bem-estar, para apaziguar suas consciências, torná-la mais aceitável frente a toda a sociedade, e não colocar jamais em risco os benefícios - em geral econômicos e políticos - advindos da mesma. Assim sendo, é uma vergonha que os vegetarianos que se declaram defensores dos animais apóiem tal farsa. Ela deve ser denunciada, e o esforço para fazê-lo deve ser empregado para ensejar um debate amplo na promoção não do bem-estar, mas da LIBERTAÇÃO ANIMAL.

Neste link há uma versão expandida deste texto, analisando outros trechos da Declaração e estendendo algumas considerações dos trechos acima destacados:

http://www.sentiens.net/top/PA_TRI_brunomuller_09_top.html

segunda-feira, 4 de fevereiro de 2008

Libertação Animal no Fórum Social Mundial 2008


Este ano o Fórum Social Mundial foi descentralizado, com eventos em mais de 100 cidades de todo o mundo - sete no Brasil, entre elas o Rio de Janeiro. E a Libertação Animal marcou presença.

Fomos, como era esperado, o único grupo a levar a mensagem nas atividades do Fórum Social Mundial no Rio de Janeiro. Mas imagino se houvesse um grupo desses em cada cidade onde houve atividades - por si só seria uma vitória, pois significaria que a Libertação Animal e o veganismo estão se espalhando pelo mundo. Mas, além disso, abririam mil oportunidades de diálogo com ativistas das mais diferentes vertentes, mas todos comprometidos com um mundo melhor.

A receptividade foi melhor que a esperada. Num ambiente politizado, esperávamos críticas sobre a suposta alienação dos vegetarianos, a suposta imoralidade de ir contra a carne num país onde pessoas passam fome, a suposta prioridade dos interesses dos seres humanos sobre os dos demais animais. Mas, para nossa grata surpresa, a receptividade foi IMENSA. Conseguimos um espaço para expôr nossas idéias, apesar de não termos nos inscrito no prazo, trocamos idéias, encontramos outros vegetarianos e até fomos entrevistados. A presença única e marcante de ativistas pela libertação animal gerou curiosidade no público, nos participantes e na imprensa. Foram dadas entrevistas à Folha de São Paulo e a dois estudantes universitários que faziam um filme para a faculdade.

Tudo isso mostra que ativistas de verdade tendem mais à empatia e ao respeito do que ao repúdio - afinal, todos que estão ali lutam por algo em que acreditam, muitas vezes colocando de lado seus interesses particulares. De fato, como já foi dito algumas vezes, quem questiona os defensores dos animais por não lutarem pelas crianças, muito provavelmente não defende nem os animais, nem as crianças.

Abaixo, o texto do panfleto que redigimos especialmente para o evento.

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VEGANISMO: Liberdade para todos os seres, contra todas as formas de Tirania

Anualmente, o Fórum Social Mundial ecoa a mensagem de que um outro mundo é possível: um mundo livre, justo, igualitário, sem exploração. Enquanto se dá o encontro, milhões são mortos e torturados de forma injusta e sistemática. Estes indivíduos não são considerados nem respeitados em seus direitos básicos mesmo por muitos que, como nós, estão dispostos a lutar por um outro mundo. Não estamos falando dos famintos do mundo, dos prisioneiros políticos. Falamos dos animais que os seres humanos confinam, escravizam, torturam e matam para seu benefício próprio.

30 bilhões de animais são mortos por ano para experimentação científica
30o milhões são mortos para alimentação
400 milhões para caça esportiva
120 milhões para a indústria da moda
40 milhões para controle de zoonoses
(dados oficiais, divulgados pela Sociedade Vegetariana Brasileira).


Estas mortes, em sua maioria legais e estimuladas pelos governos, são desnecessárias e, na maioria das vezes, precedidas de privação de liberdade e sérios danos físicos e psicológicos às suas vítimas.

Sem libertação animal, uma humanidade livre não será melhor que a antiga democracia ateniense, em que os aristocratas exerciam a democracia direta enquanto mantinham escravos e excluíam as mulheres das assembléias. Ou seja, a humanidade não passará de uma TIRANIA. A menos que o ser humano pare de se comportar como o tirano da natureza, um outro mundo não será possível. Não pode haver paz e justiça enquanto o ser humano exercer a tirania sobre os seus semelhantes e os mais vulneráveis. Isso não significa que seres humanos e animais devam ser tratados com total igualdade, apenas que sejam garantidos direitos iguais naqueles interesses que lhes são comuns: a vida, a liberdade e a integridade física e psíquica. Animais são capazes de sentir dor e prazer, têm sentimentos, criam laços afetivos com seus iguais e seus filhotes. Ignorar seus interesses básicos, portanto, é injusto e irracional.

Para condenar-se eticamente o massacre de animais, não importa a racionalidade destes, e sim sua capacidade sofrer. Assim, defendemos que o direito à vida, à liberdade e à integridade física e psíquica não são apenas direitos humanos. São DIREITOS ANIMAIS.

A libertação humana passa pela libertação animal: significa libertar-se do preconceito, a presunção de superioridade, da ignorância e da obsessão por poder que justifica a dominação dos animais. A exploração animal escraviza a humanidade: a pecuária contribui mais para o efeito estufa que os transportes; é a maior responsável por desmatamento no mundo; concentra renda; torna países dependentes da importação de alimentos. Carne, ovos e laticínios estão diretamente ligados a diversos males de saúde. Os testes com animais em laboratórios induzem a erros e atrasam o avanço da ciência. Essas atividades representam, acima de tudo, vultosos interesses econômicos que o Fórum Social Mundial combate.

O fim da escravidão animal depende apenas do ato pessoal de boicotá-la: não consumir carne, laticínios, ovos, mel; lã, seda, couro, pêlos, peles, penas; produtos testados em animais; comércio de animais domésticos, zoológicos, rodeios, rinhas e esportes que envolvam animais. Este boicote se chama VEGANISMO, um estilo de vida viável a todos, baseado numa visão mais ampla de justiça, liberdade e igualdade.

Grandes humanistas foram defensores dos direitos dos animais: homens como Rousseau, Henry David Thoreau, Tolstoi e Gandhi. Libertação humana e animal devem andar juntas: SEJA VEGANO(A)!

Para saber mais sobre Direitos Animais: http://www.direitosanimais.org/
Pensata Animal, artigos sobre Direitos Animais: http://www.sentiens.net/top/PENSATA_capa_top.html
Texto da FAO sobre impacto ambiental da pecuária (espanhol): http://www.fao.org/newsroom/es/news/2006/1000448/index.html
Relatório oficial da FAO (inglês): http://www.virtualcentre.org/en/library/key_pub/longshad/A0701E00.pdfpdf
Descubra quais empresas testam e quais não testam em animais:www.pea.org.br/crueldade/testes/index.htm
Para saber mais sobre nutrição vegana: www.guiavegano.com.br/nutricao
No Rio de Janeiro: http://www.gentilezavegana.blogspot.com/
Dúvidas? Escreva-nos: veganismo.rj@gmail.com

Libertação Animal: Um outro mundo é possível

sexta-feira, 18 de janeiro de 2008

Entrevista ao blog VegPiTa

Abaixo está o link para entrevista que concedi ao blog VegPiTa. Além de mim, outros ativistas responderam a perguntas enviadas pelo administrador do blog.

http://vegpita.blogspot.com/2008/01/entrevista-bruno-mller.html

Estive ausente nas primeiras semanas do ano. A partir da semana que vem retomarei as postagens.