domingo, 30 de março de 2008

Veganismo e Etnocentrismo - Parte I

Cães criados por sua carne, na China: nem melhor, nem pior. Igualmente bárbaro.

Não é incomum nos depararmos com esta acusação, quando defendemos o veganismo: afirmam que comer carne é uma questão cultural, e que tentar mudá-la não é apenas autoritário, mas também etnocêntrico (ou seja, a imposição da própria cultura sobre as demais). Hoje gostaria de desmistificar essa idéia.

O buraco negro do relativismo

Essa questão incorre, inevitavelmente, na armadilha do relativismo cultural, o qual afirma que todas as culturas são relativas e se equivalem.

Respeitar as diferenças culturais não significa sacralizá-las nem considerá-las imutáveis - o que é uma interpretação conservadora que não combina com o discurso, em geral progressista, dos que apelam para o relativismo cultural como princípio, e não ferramenta de análise. O que os relativistas não entendem é que equivalência não exclui a incompletude. Todas as culturas são incompletas. Apontar tais incompletudes não é manifestação hegemonista ou preconceituosa.

O relativismo cultural se apresenta em círculos cada vez mais próximos do indivíduo. Consideram que não podemos criticar culturas de outra matriz civilizacional (ex: ocidentais não podem criticar orientais ou indígenas). Depois, consideram que não podemos criticar outros países, mesmo que da mesma matriz civilizacional (brasileiros não podem criticar, digamos, as touradas espanholas). Daí a coisa se estende para regiões do mesmo país, pessoas de outras classes sociais, outro sexo, outra geração até que, finalmente, talvez não tenhamos o direito de criticar ninguém além de nós mesmos, numa ditadura do acriticismo relativista politicamente correto.

O que tais pessoas não entendem é que é impossível viver sem fazer julgamentos, emitir opiniões. Fazemos isso o tempo todo, e não há nada de necessariamente errado nisso. Também não entendem que a cultura não é imutável, e que suas transformações muitas vezes se dão pela luta ativa por mudanças, não apenas por uma suposta evolução interior sem atropelos. Embora a cultura - como os indivíduos - só mude através da aceitação geral de novos paradigmas, diálogo e o convencimento são ferramentas necessárias no processo e que, aliás, são usadas por todos, o tempo todo.

Alegar que a carne deve ser respeitada por ser cultural equivale a dizer que devemos respeitar atrocidades do passado e do presente. Pena de morte, tortura, mutilação genital (masculina e feminina) são práticas existentes e socialmente aceitas ainda em muitas culturas. Isso sem mencionar questões como a opressão feminina, o racismo, a homofobia, que com variações, são provavelmente universais. Seria errado condená-las como bárbaras por acontecerem fora do meu círculo social?

Por fim, o relativismo é uma atitude que se auto-anula: se eu me declaro incapaz de julgar qualquer opinião, como posso condenar atitudes que considerar absolutistas? Se todas as práticas e opiniões são relativas, como eu posso condenar pessoas que lutam contra determinadas atitudes que elas consideram injustas (criação de animais, tortura de seres humanos, apedrejamento de adúlteras)? Afinal, se tudo é relativo, também a relatividade é relativa. Se devo respeitar toda e qualquer opinião, devo também respeitar a opinião de quem combate tais atrocidades. Então, o relativista se mostra, na melhor das hipóteses, incoerente.

Se a questão é tão somente se manifestar contra atitudes e opiniões expressas em outro tempo e outras culturas, deveríamos nos questionar se as culturas são estanques, incapazes de dialogar entre si – o que é, obviamente, uma mentira. Nenhuma cultura vive isolada. Deveríamos igualmente nos questionar sobre a adoção seletiva de idéias estrangeiras: se o capitalismo, o nacionalismo e o socialismo são adequados para outras culturas, por que não o respeito aos direitos individuais?

Dor e sofrimento não são relativizáveis

É comodismo e covardia apelar para o relativismo diante de violações flagrantes dos direitos individuais básicos - liberdade, vida, integridade. Dor é dor, não é algo relativizável. Quem o faz, geralmente faz com pessoas distantes, no espaço e/ou no tempo, o que nos desobriga do exercício da empatia. É muito fácil fechar os olhos para um injustiça praticada longe de nós, sem sequer sentir um pouco de culpa pela nossa indiferença.

Todos os seres humanos têm o mesmo interesse na sua dignidade e integridade, moral e física. Quem acha que não devemos criticar pessoas que apedrejam adúlteras e mutilam mulheres deveria imaginar como seria conversar com essas mulheres para saber o que elas pensam de seu destino. Mesmo se alguma delas se manifestar conformada, ainda devemos defender o seu direito, e também de todas as outras. E se apenas uma se mostrar inconformada – o que é inevitável –, é porque aquela experiência cultural não pode ser absolutizada, universalizada. A crítica torna-se, então, não apenas possível, mas justa e necessária.

Ave hiper-alimentada, à força, para produzir "iguaria" francesa: foie gras

Cito um exemplo de um caso que acontece numa cultura distante não porque não haja exemplos gritantes de injustiça e violência na nossa cultura ocidental judaico-cristã, e sim para demonstrar que violações de direitos básicos cometidas em outras culturas podem - e devem - ser criticadas. Os povos islâmicos que ainda praticam o apedrejamento e a mutilação genital feminina, igualmente, têm pleno direito de apontar injustiças nas sociedades ocidentais judaico-cristãs. Da mesma forma, nunca me sinto ofendido quando um estrangeiro denuncia violações de direitos fundamentais praticados no Brasil (trabalho escravo, prostituição e trabalho infantil, tortura, grupos de extermínio, dentre outros absurdos que infelizmente nos são comuns). O que não pode acontecer – mas geralmente é o que ocorre – é uma coletividade usar os erros de outra como álibi para desqualificar as críticas recebidas e se desobrigar de trabalhar por mudanças.

A radicalização do relativismo cultural nos levará, um dia, a afirmar a impossibilidade de criticar injustiças aberrantes e indiscutíveis, como os campos de concentração nazistas, os gulags soviéticos, os Campos da Morte do Camboja, o colonialismo e diversas outras modalidades de genocídio. Isso se torna uma atitude previsível, a continuar prevalecendo o relativismo absoluto (uma contradição em termos!), especialmente à medida que essas experiências mencionadas se distanciam no tempo e os relativistas ganham outro "argumento": o de que julgamos esses eventos com olhos contemporâneos, incorrendo em anacronismo.

O que fazer?

Os relativistas gostam de nos acusar de defender uma ditadura que apaga as diferenças culturais, quando na verdade são eles que partem do errôneo pressuposto da homogeneidade cultural de civilizações, países, classes sociais, etc. Visões divergentes sempre existirão. E nesse universo de inúmeras possibilidades, é o ponto de vista que demonstra maior empatia pela vida, dignidade, liberdade do outro que deve ser defendido. Nosso compromisso, portanto, não deve ser nunca com a absolutização da cultura - que é sempre, aliás, a cultura dominante - que justifica a opressão, mas sim com aqueles oprimidos, violentados, vulneráveis. O compromisso com a liberdade e justiça para quem sofre.

Claro que a ferramenta para lutar contra a opressão nunca passa pela simples imposição, até pelo fato de que ela não é uma forma de mudança efetiva. Empreender guerras preventivas ou "humanitárias" não é uma solução viável para mudar a realidade, inclusive do ponto de vista estratégico. Quando uma injustiça acontece sob nossos olhos, devemos intervir. Mas se ela acontece do outro lado do planeta, promovida por pessoas com outros valores e outro idioma, esse tipo de ação direta se mostra inadequado, ineficaz, perigoso. Mas isso não é uma licença para silenciar: os indivíduos têm sua voz, seu poder pessoal de boicotar, de dialogar, de irradiar, para combater injustiças cometidas por governos, corporações ou indivíduos; e pressionar seus governos para igualmente denunciar e boicotar as injustiças – como no caso atual das Olimpíadas de Pequim, que deveriam ser boicotadas pelos governos, atletas e pelo público. Neste último caso, medidas individuais fariam muita diferença: não comprar produtos chineses, não comprar de patrocinadores dos Jogos de Pequim, não assistir às competições, não viajar para a China, seja para turismo comum, seja para assistir aos Jogos (no caso daqueles que têm recursos e que planejam fazê-lo).

A melhor forma para se encarar as injustiças e as flagrantes violações de direitos individuais básicos não é nem o silêncio nem a imposição, mas o diálogo. Especialmente no caso de diferentes culturas. O diálogo intercultural permite explorar pontos de contato, apontar falhas e incoerências mútuas. Deve-se buscar a cooperação entre indivíduos cujos pensamentos se completam, independente das raízes culturais e fronteiras nacionais. Por isso os defensores dos direitos individuais básicos devem estabelecer canais de diálogo com os que lutam contra a opressão nas diferentes partes do mundo. E por isso os governos gostam de acusar grupos dissidentes de traição à pátria – especialmente os regimes autoritários.

Ocidentalíssima criação de porcos: por que só a estupidez pode ser universal?

Na próxima postagem, explicarei como esta lógica se estende ao veganismo e à libertação animal:

Veganismo e Etnocentrismo - Parte II

segunda-feira, 24 de março de 2008

Na Natureza Selvagem: uma Jornada Violenta, Incoerente e Equivocada


"Na Natureza Selvagem" ("Into the Wild", em inglês) é, sem dúvida, o filme a se boicotar na temporada. Há tempos não via um filme tão equivocado, superficial, contraditório e, por fim, desprezível na sua condução visual e narrativa. Qualidades que pertencem também à história verídica em que se baseia.

Não se trata de questionar o talento do diretor, Sean Penn, que consegue boas tomadas, desenvolve a história em capítulos e flashbacks bem amarrados e extrai uma performance indiscutivelmente brilhante do ator principal, Emile Hirsch. A qualidade da trilha sonora eu já considero discutível, assim como alguns ganchos do filme - como quando um discurso do presidente americano George Bush (o pai) defendendo a Guerra contra o Iraque (a primeira, em 1991) é usado como paralelo para a decisão do personagem central de agir, em vez de esperar os acontecimentos. O problema maior, entretanto, são as idéias contidas e transmitidas no filme.

Inevitavelmente a história de Christopher McCandless iria, um dia, ser levada ao cinema. Ela é real, mas cheia de elementos cinematográficos: fugindo de uma infância traumática, escolado pela ganância e carreirismo dos pais, McCandless, um jovem com futuro promissor, larga a sua vida confortável e foge sem dar notícias, em busca de uma vida "simples", de contato com a natureza, numa jornada que o levaria ao Alasca.

O problema é que McCandless parece movido pelas razões erradas, o que lhe leva a escolhas igualmente erradas. Na tela, porém, o que se busca ressaltar é seu idealismo. Uma análise criteriosa, no entanto, e especialmente do ponto de vista abolicionista, revela as inconsistências do idealismo de McCandless e os equívocos a que ele o levou.

A impulsividade e revolta juvenil do protagonista, embora com motivações legítimas, contra o sistema e a própria família, o levam a uma jornada que deveria ser de auto-conhecimento, mas se torna destrutiva - destrutiva da família, incluindo a irmã, também vítima da violência familiar, e por fim também vítima da fuga do protagonista, sofrendo sem saber o destino do irmão; destrutiva da natureza; e destrutiva de si mesmo, num final que mostra, possivelmente sem se dar conta, o quanto o ser humano se afastou da natureza e não se encontra, portanto, preparado para retornar ao seu seio apenas por um golpe voluntarista.

McCandless é um fugitivo da civilização, mas sua revolta, canalizada para a fuga e a marginalidade, em nada contribui para uma crítica prática e realmente radical da mesma. Em suas andanças, ele trabalha em uma moderna colheita e uma rede de fast food, pega carona em trens e com motoristas em autoestradas, além de fazer constante uso de um rifle moderno para caçar. Ou seja: sempre que possível, McCandless que, idealista, queima o próprio dinheiro e abandona o próprio carro, não consegue escapar verdadeiramente da modernidade industrial. Ele constantemente se vale dela ao mesmo tempo em que a critica, uma atitude de eficácia e coerência questionáveis. De libertário e radical, McCandless não tem nada - é apenas um rebelde que não sabe o que fazer nem como canalizar sua justa indignação. E como é comum nessas situações de rebeldia ignorante e militante, quem sofre são indivíduos que nenhuma relação têm a indignação original - nesse caso, os animais selvagens.

O pior de tudo é mesmo a "comunhão" de McCandless com a natureza. Rifle a tiracolo, são inúmeras as cenas de caçadas e é sintomática - e abjeta - a centralidade que elas têm na história - com direito a uma longa e nauseante seqüência de desmembramento de um alce. Em uma cena anterior, um personagem ensina McCandless - e o espectador - a preservar a carne dos animais que caçar. Como o "supervagabundo" (codinome que o protagonista adota em sua fuga) consegue o rifle de caça moderno, não se diz. Talvez não seja conveniente à mensagem do cineasta-ativista Sean Penn. Comprado, ganhado ou roubado, o rifle não contribui para o contraponto que o diretor pretende fazer (civilização decadente X retorno à natureza). Pelo contrário, destaca, inconscientemente, o elo que existe entre os dois mundos que ele contrasta: uma sociedade em que adquirir uma arma de fogo é extremamente fácil; o culto norte-americano ao andarilho armado, solitário, aventureiro e destemido que forjou essa "grande" nação; e a violência que este culto enseja. Isso fica patente mesmo na obra de um crítico da sociedade norte-americana, como Penn, que mostra não conseguir enxergar a relação com a natureza senão como a de um homem armado matando animais selvagens. No final, o contraste se mostra, portanto, absolutamente falso.

Tampouco McCandless parecia conseguir enxergar as contradições embutidas na sua aventura. Ele não consegue sequer romper com o paradigma carnívoro da civilização ocidental - o filme, aliás, é pródigo em cenas de conversas em torno de pratos recheados de cadáveres, e conta ainda com a participação de um artesão de couro, ofício que McCandless se mostra feliz em aprender. Por fim, o protagonista paga o preço de seus equívocos. Apenas depois de faminto, sem animais por perto, ele finalmente decide estudar a flora local para descobrir frutos, folhas e raízes comestíveis - que seriam a base alimentar de qualquer sociedade caçadora-coletora. Tal conhecimento seria tradicional e transmitido geração após geração numa sociedade que vivesse em verdadeira comunhão com a natureza, mas ele não se dá ao trabalho de pesquisá-lo até o momento em que sua estratégia caçadora fracassa. O final demonstra, portanto, que McCandless não conseguiu escapar o suficiente da civilização para sobreviver, e sucumbe às suas próprias contradições e incoerências, e da sua incapacidade de cumprir seu propósito de se desligar do mundo moderno e viver com simplicidade. Esse acontecimento - real - mostra, na trajetória de um indivíduo, a separação de toda a humanidade da natureza.

No final, fica a dúvida se o retrato feito do protagonista - em geral simpático - contribui, em qualquer nível, para a crítica de suas falhas graves de atitude e percepção no que se refere à família, à sociedade, à natureza. Mesmo que seja possível fazer essa crítica, ela não salva o filme. A naturalização da relação violenta com os animais não permite. Nenhum abolicionista deve cometer o mesmo erro que eu, e dar dinheiro para este absurdo.

quarta-feira, 19 de março de 2008

Agradecimento

À minha miguxa Rachel Siqueira, o fake mais autêntico da internet, por ter me ajudado a melhorar a interface do meu blog e cedido, gentilmente, a BELÍSSIMA foto que lhe serve de imagem de apresentação.

Obrigado, Chel. Te adoro!

Aproveito e divulgo o blog que ela divide com outras duas amigas, a Emanuelle (Manuka) e Janaina (Jan Jan):

http://sandubavegano.blogspot.com

Crítica à Declaração Universal de Bem-Estar dos Animais


Já há mais de um ano tem circulado na internet pedidos de apoio à Declaração Universal de Bem-Estar dos Animais - ainda em fase de rascunho, podendo ser alterada sem aviso prévio aos signatários. Quero crer que a adesão em massa de vegetarianos a essa Declaração se deva à ingenuidade, mais que à concordância. Muitos vêem a frase "Para mim os Animais Importam" que geralmente acompanha a divulgação do documento, e podem se deixar enganar. Outros não estão ainda familiarizados com os debates sobre as questões animais - os mais escolados sabem que "Bem-Estar", um termo que parece encerrar coisas boas, na verdade carrega implícita a idéia de que não é a liberdade que conta, mas apenas o conforto. Animais em jaulas confortáveis esperando a inevitável violação de sua integridade física e/ou psíquica, uma vez já violado seu direito básico à liberdade.

Outro engano possível é supor que o bem-estarismo, a redução do sofrimento, é uma fase necessária no processo de libertação animal. Na verdade, enquanto lutarmos pelo bem-estar, por definição, não estaremos lutando pela libertação. Não se pode chancelar e condenar a exploração ao mesmo tempo. E o bem-estarismo nitidamente chancela a exploração, constatação que aflora límpida da análise desse documento.

Quero, então, fornecer elementos à crítica e, portanto, repúdio completo à Declaração Universal de Bem-Estar dos Animais, promovida pela World Society for the Protection of Animals (WSPA, Sociedade Mundial de Proteção Animal), uma entidade assumidamente bem-estarista, de raízes anglo-americanas, surgida em 1981.

A Declaração não se dispõe a condenar qualquer das formas de exploração animal listadas - sem dúvida as mais disseminadas em todo o mundo. Inclusive aquela que é, possivelmente, a mais bárbara de todas: a vivissecção. Ela tão somente pede que a exploração seja feita observando critérios (nem mesmo limites: apenas critérios de bem-estar). Destaco alguns trechos que tornam indiscutível o respaldo que ela dá à exploração animal:

RECONHECER que a utilização de animais por parte dos humanos pode reverter em benefícios importantes

Ninguém pode afirmar que a escravidão é justa quando rende benefícios ao escravista. O que importa é que a escravidão rende inequívocos malefícios ao escravo.

RECONHECER que (...) os vegetarianos desempenham um papel importante na conservação quer da saúde, quer do bem-estar animal

Este trecho disfarça, sob o manto da suposta exaltação, uma minimização da importância do vegetarianismo. O veganismo – que é o vegetarianismo estrito (sem nenhum alimento de origem animal) somado ao boicote de outros produtos resultantes da exploração animal – é a base inegociável de uma atitude de coerência e respeito em relação aos animais. Enquanto houver seres humanos que se alimentem dos animais e suas secreções, não é possível preservar a saúde e o bem-estar dos mesmos, menos ainda a sua liberdade. Assim, o vegetarianismo e mesmo o veganismo são meros paliativos enquanto ainda houver exploradores. E mesmo o veganismo só terá efeito sobre a vida dos animais quando for adotado por toda a humanidade, ou por uma maioria capaz de levar adiante a abolição da exploração animal.

RETER que as "cinco liberdades (livre de fome, de sede e de má nutrição; livre de medo e de perigo; livre de desconforto físico e térmico; livre de dor, ferimento e doença; e liberdade para expressar padrões normais de comportamento)" e as "três medidas (redução do número de animais, aperfeiçoamento dos métodos experimentais e substituição dos animais nas técnicas utilizadas)" facultam uma orientação valiosa para a utilização de animais

Ora, todas essas liberdades são diretamente atacadas, de modo evidente, pela pecuária, pelo abate de animais para alimentação e pela vivissecção - além das outras formas de escravidão. É muito fácil demonstrar que mesmo que as cinco liberdades sejam respeitadas ao longo da vida do animal - o que é altamente improvável -, elas serão imediatamente e irrevogavelmente violadas no momento do abate ou da vivissecção. Logo, a Declaração é incoerente, se não hipócrita. As três medidas, ou 3 Rs (dos termos no inglês, "reduction", "refinement", "replacement"), por sua vez, existem já há quase 50 anos - foram formuladas em 1959, na Grã-Bretanha. De lá para cá o número de animais empregados em laboratório apenas aumenta, o que mostra a total falência do paradigma bem-estarista e sua incapacidade de atingir os próprios objetivos reformistas. Mais que isso, demonstra que o reformismo apenas existe para aprimorar a exploração animal. Por fim, o trecho "orientação valiosa para a utilização de animais" não deixa dúvidas. A Declaração afirma que com regulamentação e observando-se certas premissas, a exploração animal é aceitável, e esse pensamento nunca levará ao fim da exploração e, longe de proteger os animais, chancela, em última instância, os maus-tratos e a crueldade que são intrínsecos a atividades como a pecuária e a vivissecção. É, portanto, uma Declaração que sofre de má-formação congênita pois torna os animais vulneráveis no mesmo momento em que os pretende proteger.

3. Os [estados] devem empreender todas as medidas adequadas para evitar a crueldade para com os animais e para reduzir o seu sofrimento

Se o sofrimento requer redução, está implícito o reconhecimento de que ele será, em algum momento, promovido. Em contraste com esta Declaração bem-estarista, uma Declaração abolicionista assumiria o compromisso não de reduzir, mas de abster-se de promover qualquer tipo de sofrimento deliberado e desnecessário ao animal não-humano, só sendo legítimo causar algum dano quando para protegê-lo de um sofrimento maior, e não para atender a interesses alheios.

4. As normas adequadas para o bem-estar dos animais devem continuar a ser desenvolvidas e elaboradas, tais como, mas não só, as que dizem respeito à utilização e gestão de animais de quinta, animais de companhia, animais utilizados em pesquisas científicas, animais de carga, animais selvagens e animais para fins recreativos.

Aqui fica claro que não há qualquer condenação de nenhum tipo, nenhuma crítica fundamental, de base, à exploração animal como um todo ou a alguma modalidade de exploração animal em particular.

Em conclusão, pode-se dizer que esta Declaração não atende a nenhum interesse fundamental dos animais não-humanos, mas tão somente ao interesse egoísta do ser humano em continuar explorando-os, promovendo um suposto bem-estar, para apaziguar suas consciências, torná-la mais aceitável frente a toda a sociedade, e não colocar jamais em risco os benefícios - em geral econômicos e políticos - advindos da mesma. Assim sendo, é uma vergonha que os vegetarianos que se declaram defensores dos animais apóiem tal farsa. Ela deve ser denunciada, e o esforço para fazê-lo deve ser empregado para ensejar um debate amplo na promoção não do bem-estar, mas da LIBERTAÇÃO ANIMAL.

Neste link há uma versão expandida deste texto, analisando outros trechos da Declaração e estendendo algumas considerações dos trechos acima destacados:

http://www.sentiens.net/top/PA_TRI_brunomuller_09_top.html

segunda-feira, 4 de fevereiro de 2008

Libertação Animal no Fórum Social Mundial 2008


Este ano o Fórum Social Mundial foi descentralizado, com eventos em mais de 100 cidades de todo o mundo - sete no Brasil, entre elas o Rio de Janeiro. E a Libertação Animal marcou presença.

Fomos, como era esperado, o único grupo a levar a mensagem nas atividades do Fórum Social Mundial no Rio de Janeiro. Mas imagino se houvesse um grupo desses em cada cidade onde houve atividades - por si só seria uma vitória, pois significaria que a Libertação Animal e o veganismo estão se espalhando pelo mundo. Mas, além disso, abririam mil oportunidades de diálogo com ativistas das mais diferentes vertentes, mas todos comprometidos com um mundo melhor.

A receptividade foi melhor que a esperada. Num ambiente politizado, esperávamos críticas sobre a suposta alienação dos vegetarianos, a suposta imoralidade de ir contra a carne num país onde pessoas passam fome, a suposta prioridade dos interesses dos seres humanos sobre os dos demais animais. Mas, para nossa grata surpresa, a receptividade foi IMENSA. Conseguimos um espaço para expôr nossas idéias, apesar de não termos nos inscrito no prazo, trocamos idéias, encontramos outros vegetarianos e até fomos entrevistados. A presença única e marcante de ativistas pela libertação animal gerou curiosidade no público, nos participantes e na imprensa. Foram dadas entrevistas à Folha de São Paulo e a dois estudantes universitários que faziam um filme para a faculdade.

Tudo isso mostra que ativistas de verdade tendem mais à empatia e ao respeito do que ao repúdio - afinal, todos que estão ali lutam por algo em que acreditam, muitas vezes colocando de lado seus interesses particulares. De fato, como já foi dito algumas vezes, quem questiona os defensores dos animais por não lutarem pelas crianças, muito provavelmente não defende nem os animais, nem as crianças.

Abaixo, o texto do panfleto que redigimos especialmente para o evento.

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VEGANISMO: Liberdade para todos os seres, contra todas as formas de Tirania

Anualmente, o Fórum Social Mundial ecoa a mensagem de que um outro mundo é possível: um mundo livre, justo, igualitário, sem exploração. Enquanto se dá o encontro, milhões são mortos e torturados de forma injusta e sistemática. Estes indivíduos não são considerados nem respeitados em seus direitos básicos mesmo por muitos que, como nós, estão dispostos a lutar por um outro mundo. Não estamos falando dos famintos do mundo, dos prisioneiros políticos. Falamos dos animais que os seres humanos confinam, escravizam, torturam e matam para seu benefício próprio.

30 bilhões de animais são mortos por ano para experimentação científica
30o milhões são mortos para alimentação
400 milhões para caça esportiva
120 milhões para a indústria da moda
40 milhões para controle de zoonoses
(dados oficiais, divulgados pela Sociedade Vegetariana Brasileira).


Estas mortes, em sua maioria legais e estimuladas pelos governos, são desnecessárias e, na maioria das vezes, precedidas de privação de liberdade e sérios danos físicos e psicológicos às suas vítimas.

Sem libertação animal, uma humanidade livre não será melhor que a antiga democracia ateniense, em que os aristocratas exerciam a democracia direta enquanto mantinham escravos e excluíam as mulheres das assembléias. Ou seja, a humanidade não passará de uma TIRANIA. A menos que o ser humano pare de se comportar como o tirano da natureza, um outro mundo não será possível. Não pode haver paz e justiça enquanto o ser humano exercer a tirania sobre os seus semelhantes e os mais vulneráveis. Isso não significa que seres humanos e animais devam ser tratados com total igualdade, apenas que sejam garantidos direitos iguais naqueles interesses que lhes são comuns: a vida, a liberdade e a integridade física e psíquica. Animais são capazes de sentir dor e prazer, têm sentimentos, criam laços afetivos com seus iguais e seus filhotes. Ignorar seus interesses básicos, portanto, é injusto e irracional.

Para condenar-se eticamente o massacre de animais, não importa a racionalidade destes, e sim sua capacidade sofrer. Assim, defendemos que o direito à vida, à liberdade e à integridade física e psíquica não são apenas direitos humanos. São DIREITOS ANIMAIS.

A libertação humana passa pela libertação animal: significa libertar-se do preconceito, a presunção de superioridade, da ignorância e da obsessão por poder que justifica a dominação dos animais. A exploração animal escraviza a humanidade: a pecuária contribui mais para o efeito estufa que os transportes; é a maior responsável por desmatamento no mundo; concentra renda; torna países dependentes da importação de alimentos. Carne, ovos e laticínios estão diretamente ligados a diversos males de saúde. Os testes com animais em laboratórios induzem a erros e atrasam o avanço da ciência. Essas atividades representam, acima de tudo, vultosos interesses econômicos que o Fórum Social Mundial combate.

O fim da escravidão animal depende apenas do ato pessoal de boicotá-la: não consumir carne, laticínios, ovos, mel; lã, seda, couro, pêlos, peles, penas; produtos testados em animais; comércio de animais domésticos, zoológicos, rodeios, rinhas e esportes que envolvam animais. Este boicote se chama VEGANISMO, um estilo de vida viável a todos, baseado numa visão mais ampla de justiça, liberdade e igualdade.

Grandes humanistas foram defensores dos direitos dos animais: homens como Rousseau, Henry David Thoreau, Tolstoi e Gandhi. Libertação humana e animal devem andar juntas: SEJA VEGANO(A)!

Para saber mais sobre Direitos Animais: http://www.direitosanimais.org/
Pensata Animal, artigos sobre Direitos Animais: http://www.sentiens.net/top/PENSATA_capa_top.html
Texto da FAO sobre impacto ambiental da pecuária (espanhol): http://www.fao.org/newsroom/es/news/2006/1000448/index.html
Relatório oficial da FAO (inglês): http://www.virtualcentre.org/en/library/key_pub/longshad/A0701E00.pdfpdf
Descubra quais empresas testam e quais não testam em animais:www.pea.org.br/crueldade/testes/index.htm
Para saber mais sobre nutrição vegana: www.guiavegano.com.br/nutricao
No Rio de Janeiro: http://www.gentilezavegana.blogspot.com/
Dúvidas? Escreva-nos: veganismo.rj@gmail.com

Libertação Animal: Um outro mundo é possível

sexta-feira, 18 de janeiro de 2008

Entrevista ao blog VegPiTa

Abaixo está o link para entrevista que concedi ao blog VegPiTa. Além de mim, outros ativistas responderam a perguntas enviadas pelo administrador do blog.

http://vegpita.blogspot.com/2008/01/entrevista-bruno-mller.html

Estive ausente nas primeiras semanas do ano. A partir da semana que vem retomarei as postagens.

segunda-feira, 31 de dezembro de 2007

Testes em laboratórios: cruéis, desnecessários, perigosos



Muito se tem falado sobre os testes em laboratório, e mesmo assim esse tema ainda está longe de alcançar o consenso necessário para ser o passo definitivo - mesmo entre os vegetarianos e defensores dos animais.

É sabido, público e notório que não precisamos de carne para viver. Que não precisamos de zoológicos, rodeios, rinhas, corridas de animais... É muito fácil e cômodo se posicionar contra estas coisas. Nenhuma delas implica um sacrifício muito grande ou uma dúvida razoável.

Mas quando se trata da abolição definitiva de produtos de origem animal ou de boicotar os testes em laboratório a coisa muda de figura. Aí mesmo pessoas supostamente defensoras dos direitos dos animais recuam, tergiversam, relativizam. Existem dois problemas com essa postura. Uma referente à ignorância que permeia essas opiniões. Outra referente a uma ética pela metade - que se revela, portanto, como ética nenhuma.

Vamos primeiro à ética, porque este é o ponto primordial.

Quando se debate sobre os direitos fundamentais de indivíduo, são os direitos e necessidades desse indivíduo que devem ser levados em consideração. Pouco importa se a defesa desses direitos fundamentais poderá afetar negativamente os interesses de outro indivíduo. Por isso tantos abolicionistas insistem no paralelo entre a exploração animal e a escravidão humana: quando se debate os direitos dos animais cria-se uma suposta e arbitrária hierarquia em que os interesses mesquinhos, não essenciais de um ser humano estão acima dos interesses fundamentais de qualquer animal à vida, à liberdade, à integridade física e psíquica.

E fica claro, então, que a ética que rege nossas relações com os animais não é uma ética verdadeira, mas uma definição de critérios de como podemos explorar animais, sob que circunstâncias, e para que fins. E daí estabelece-se que aprisionar, torturar e matar animais é justo e necessário para salvar vidas humanas.

Essa postura é a miséria moral do ser humano. Não é eticamente justificável submeter animais à dor e sofrimento constante para extrair disso benefícios próprios - da mesma forma que não é eticamente justificável submeter outros seres humanos à dor e sofrimento para atingir o mesmo fim.

Quando em defesa dos testes, os vivisseccionistas costumam cair em contradição. Afirmam que é eticamente justificável pois esses animais não são como nós. Mas afirmam que os testes são seguros e úteis devido às semelhanças desses animais conosco.

É verdade, nós temos muitas semelhanças com os outros animais. Longe de justificar a validade da vivissecção, essa constatação expõe toda a sua imoralidade. Animais que são sensíveis, dotados de sentimentos, raciocínio, de interesses, capazes de sentir dor e prazer - como nós - não podem ser submetidos a tamanhas sevícias sem que haja uma doença profunda na humanidade, muito maior que aquela que pretendemos curar com tais testes - uma doença ética, moral, em que o ser humano, a despeito de ser dotado de reflexão, opta por ignorar o sofrimento que provoca em suas vítimas porque seu cálculo matemático, utilitarista, especista, afirma que é melhor matar alguns milhões de animais para, assim, preservar vidas humanas. Essa é a justificativa que apresentam. E muitos supostos defensores dos animais caem nessa armadilha.



A realidade é, porém, muito mais atroz do que esse suposto dilema moral entre matar uns para salvar outros. E é essa realidade que precisa ser debatida publicamente para enterrar os argumentos "altruístas" dos defensores dos testes em animais.

Em primeiro lugar, muitos dos testes que são feitos são arcaicos, ultrapassados, e apenas levados adiante porque são formas baratas de conseguir um certificado de "segurança" para um determinado produto.

Em segundo lugar, a "segurança" que se busca com esses testes não é a segurança do cidadão - ou "consumidor". É a segurança da empresa que comercializa aquele produto - sejam cosméticos ou medicamentos. Para atestar a "segurança" de um shampoo, por exemplo, coelhos são expostos ao composto até ficarem cegos - quando qualquer ser humano sabe que deve evitar o contato do shampoo com os olhos e, se acidentalmente isso acontecer, será por um período de poucos segundos, após o qual todos sabemos que devemos lavar os olhos com água em abundância. Com o conhecimento que acumulamos ao longo dos tempos não precisamos mais torturar animais para chegar a certas conclusões.

A partir daí muitas pessoas passam a concordar com a abolição dos testes de cosméticos e outros produtos supérfluos. Mas e os medicamentos? Eles não salvam vidas?

Aqui, há que se considerar primeiramente a enorme quantidade de erros que o modelo da experimentação animal produziu ao longo das décadas. A maioria dos medicamentos aprovados em testes com animais são posteriormente reprovados na fase de testes com seres humanos ou então recolhidos após breve período de comercialização.

Diversos profissionais das áreas médicas e biológicas sabem disso e concordam que o método da experimentação animal, além de cruel, é arcaico e mentiroso. Existem outros métodos para se produzir medicamentos seguros para o ser humano, mas estes não são adotados porque a experimentação animal é, antes de tudo, uma indústria. Um indústria que movimenta muito dinheiro, garante emprego e prestígio a cientistas, publicações em periódicos, além de renda para os criadores de animais e fabricantes de equipamentos.

E isso não é tudo. Tão importante quanto o negócio da vivissecção é o paradigma "científico" por trás do modelo animal. O paradigma dominante na medicina, da experimentação controlada, é do século XIX e já se mostrou obsoleto, no século XX, a partir dos avanços da física: hoje se sabe que a experimentação em laboratório JAMAIS será idêntica à observação do ambiente natural. Isso se chama interferência do pesquisador, que compromete a objetividade do estudo. Em outras palavras: um macaco enjaulado não se comporta da mesma forma que um macaco em liberdade. Mesmo médicos sabem disso, e basta verificar como o comportamento do próprio ser humano é diferente em sociedade ou numa prisão.

Inteligência e recursos são drenados em pesquisas marcadas por um paradigma obsoleto que leva a resultados enganosos. Assim, longe de garantir o "progresso da ciência", como afirmam seus defensores, a vivissecção se funda num atraso que continua se propagando ano após ano, década após década.

E também igualmente importante é questionarmos, afinal, a forma como temos tentado curar doenças por todo esse tempo. O ser humano vive, muitas vezes de forma imposta pelo estilo de vida contemporâneo, exposto a diversos fatores de insalubridade: má alimentação, drogas (legais ou ilícitas), poluição, estresse, insônia, depressão... Nem sempre é possível controlar o grau de exposição a estes fatores. Mas muitas vezes isso é possível. E a alimentação, por exemplo, é um fator decisivo no bom funcionamento do organismo. Depois de passar uma vida inteira explorando animais para se alimentar, o ser humano, envenenado pelas toxinas da carne, busca a solução para uma doença que poderia ter evitado através de um medicamento testado em outros animais. A natureza e os animais pagam o preço da nossa ignorância e arrogância.

E, logicamente, a indústria farmacêutica agradece. Ela vive da doença, não da saúde. Não é inteligente supor que seja do interesse dessas pessoas salvar vidas, curar doenças. E aqui fica claro que também a saúde humana é uma questão social, econômica e POLÍTICA. A vida insalubre que é promovida e imposta a nós é o fator primordial para manter a engrenagem do sistema... e ainda rende lucros através da busca de cura por meio de medicamentos. Antes o milagre vinha da fé. Agora temos a mesma fé cega nos milagres da ciência. E somos incapazes de supor que o mais inteligente é vivermos de modo a não depender de milagres: uma vida livre de toxinas, agrotóxicos, hormônios, drogas e produtos químicos em geral. Uma vida em que, respeitando a nós mesmos, nossos semelhantes e a natureza, poderemos ser mais felizes e plenos.

OBS: Existem várias fontes disponíveis atualmente para quem quiser aprender mais sobre a torpeza da vivissecção e formas éticas de se fazer ciência, tratar doenças, educar novos cientistas. Por favor, antes de afirmar impulsivamente que a vivissecção existe para salvar vidas humanas e o faz com eficiência, pesquise:

http://www.internichebrasil.org/ (Rede que promove a abolição do uso de animais na educação)

http://www.nutriveg.com.br/ (artigo sobre vivissecção)

http://www.fbav.org.br/ (Frente Brasileira Anti-Vivissecção)

http://www.sentiens.net/ (diversos artigos sobre vivisseção)

www.pea.org.br/crueldade/testes/index.htm Link para a lista das empresas que testam e as que não testam em animais. O boicote é nossa arma de luta, não faz sentido sermos contra essas atrocidades continuarmos financiando-as.

Recomendo ainda a leitura do livro recém-lançado "Ética e Experimentação Animal: Fundamentos Abolicionistas", da doutora em ética Sonia Felipe.

sábado, 22 de dezembro de 2007

Deus abraâmico e antropocentrismo*



Estamos em época de festas religiosas. Aproxima-se o Natal, uma celebração de nascimento, vida, paz e amor que, contudo, se dá em meio a uma mesa farta em cadáveres. Nesta época se dá também a peregrinação a Meca, um dos deveres dos muçulmanos, e dentre os ritos desta peregrinação, o sacrifício de animais como meio de reviver o auto-de-fé do patriarca Abraão que, prestes a sacrificar seu próprio filho em nome de Deus, teve este sacrifício impedido no último minuto pela "infinita bondade e misericórdia" divina e, no lugar do filho, sacrificou um cordeiro.

Para leigos, teocentrismo e antropocentrismo são fenômenos distintos. Assim aprendemos na escola: que a Idade Média foi a era do teocentrismo, quando a vida girava em torno da religião, e esse teocentrismo foi abalado pela Renascença, que deu lugar para o humanismo e o antropocentrismo, tão bem resumido no monólogo de Shakespeare:

“Que obra-prima é o homem! Como é nobre em sua razão! Como é infinito em faculdades! Em forma e movimentos, como é expressivo e admirável! Nas ações, como se parece com um anjo! Na inteligência, como se parece com um deus! A maravilha do mundo! O padrão de todos os animais! E contudo, para mim, o que é esta quintessência do pó?” (William Shakespeare, Hamlet, cerca de 1600, tradução minha).

Na verdade, a questão é muito mais complexa que isso. A fé monoteísta de judeus, cristãos e muçulmanos é, de fato, uma das maiores manifestações do antropocentrismo no pensamento humano, como a própria história de Abraão mencionada acima pode comprovar - esta como outras passagens do Antigo Testamento - e, também, uma breve análise de preceitos básicos do monoteísmo judaico, cristão e islâmico.

As passagens da Bíblia sobre a relação com os animais são às vezes contraditórias, e não sendo eu teólogo, não me atrevo a tentar fazer uma interpretação exaustiva e profunda. Basta constatar que a maioria esmagadora da humanidade tem da Bíblia o mesmo conhecimento limitado que eu. E a leitura que esses seres humanos leigos fazem da Bíblia tem levado à justificação do seu domínio sobre os demais animais.

Limitemo-nos, então, ao mais óbvio: a afirmação, no Gênesis (logo, base das três religiões abraâmicas) de que Deus criou o homem à sua imagem e semelhança. Não importa se tomamos essa frase no sentido literal (como fizera Michelangelo em sua famosa representação de Deus da Capela Sistina, que podemos ver abaixo) ou no sentido figurado, de que somos feitos à imagem de Deus porque espelhamos suas qualidades, sua bondade, sua sabedoria, seu amor (teria sido o pecado que teria afastado o homem de Deus e levado à sua natureza imperfeita).



Essa passagem reflete a idéia de que o ser humano é especial, distinto das demais "criaturas", e portanto apto a reinar sobre elas. Afinal, se temos uma natureza divina (ao menos em parte), somos superiores aos demais seres, que sequer alma têm - apenas nós podemos aspirar à vida eterna. Ora, se Deus nos dá uma natureza especial, divina, e nos permite reinar sobre a natureza e os outros animais, fica nítido o conteúdo antropocêntrico do monoteísmo das três religiões abraâmicas.

O antropocentrismo religioso fica mais nítido ainda quando paramos para refletir quem é, afinal, o criador, e quem é a criatura. Não havendo qualquer indício, prova ou evidência lógica e racional incontestáveis da existência de Deus, é justo imaginar que o criador é, muito possivelmente, o ser humano. É o ser humano que cria deuses à sua imagem e semelhança. Por isso os deuses são tão humanos: capazes de extrema bondade, mas também de atos cruéis e vingativos - e quem já leu o Antigo Testamento sabe que crueldade e vingança não são atributos específicos dos deuses pagãos. O ser humano cria deuses para afirmar sua própria natureza divina. Mas nem todas as religiões podem ser consideradas, por isso, antropocêntricas. As religiões politeístas têm, muitas delas, deuses com aparência de animais não-humanos. A crença de religiões orientais na reencarnação, comum, por exemplo, ao hinduísmo, o taoísmo, o budismo e o jainismo, afirma uma integração cósmica em que nenhum ser pode ser considerado superior a outro. Não surpreendentemente, estas religiões estendem aos demais animais os preceitos de não-violência, quando não defendem explicitamente o vegetarianismo. Em algumas culturas, porém, o ser humano separa os demais animais da divindade e da espiritualidade. E não se torna surpreendente que são essas culturas as que mais desrespeitam, exploram, vilipendiam dos demais animais e da natureza como um todo.

O monoteísmo abraâmico, especialmente em sua versão popular, optou por dividir a natureza humana em duas: a boa e a má, que posteriormente separou nas figuras de Deus e do Diabo (Satanás). As aspirações morais do ser humano se tornaram aspirações divinas e a violação das mesmas, atos pecaminosos. Muito freqüentemente os atos imorais são qualificados como bestiais, ou seja, típico das bestas, das feras, dos animais não-humanos. Assim, ao mesmo tempo atribuem nossa moralidade a uma entidade externa - Deus - e nossos desvios morais às "feras" a quem Deus e sua "moralidade" é inalcançável e até oposta. Desse modo, nós acabamos afirmando não apenas nossa superioridade sobre os animais, mas também nos separando totalmente desses. Os animais têm "instintos", nós "razão" e "sentimento", os quais vêm de Deus, e só tangível a nós, que temos alma e fomos criados à sua imagem e semelhança. Isso é não apenas uma negação da nossa própria condição de animais, mas igualmente a negação aos animais não-humanos da posse de qualquer atributo tido como humano, o que mostra que as religiões abraâmicas, além de antropocêntricas, são especistas. Especismo que foi estendido às ciências (cuja origem não está apartada da fé), sob o mito dos animais como seres "autômatos", "irracionais" e puramente instintivos - mito que, embora já refutado pelos próprios critérios da ciência, continua forte no subconsciente coletivo ocidental.

O Deus abraâmico é um Deus antropocêntrico e especista, ou ao menos assim é concebido pela maioria esmagadora daqueles que nele crêem. Por isso, nesta época, os cristãos celebram o Natal, data símbolo da paz, do amor, do nascimento do Messias, matando animais em massa e comendo suas carcaças, sem qualquer indício ou resquício do amor e compaixão que é a pedra fundamental de sua fé.

*Obrigado a Glauber Klein pela revisão e sugestões.

quinta-feira, 13 de dezembro de 2007

Por que Veganismo?


“Quem cala sobre teu corpo, consente na tua morte (...). Quem grita, vive contigo”
Ronaldo Bastos


De tudo o que foi mencionado na postagem anterior resta então a pergunta: o que fazer? Como ser de fato um abolicionista?

Há muito o que se pode fazer pelos animais. Mas o mais básico de tudo, antes de se fazer manifestações, passeatas, panfletagens, pressionar por leis, é se tornar VEGANO.

Veganismo, como defini anteriormente, é o boicote a todo e qualquer subproduto da exploração animal, não só a carne – inclusive a de peixe, que muitos “vegetarianos” admitem –, mas leite, ovos, mel, seda, couro e peles em geral, além de produtos testados em animais. Teremos oportunidade de debater mais detidamente cada um desses itens. Por ora quero dizer por que devemos ser veganos.

POR UMA QUESTÃO DE JUSTIÇA. Me esforcei em demonstrar as injustiças que praticamos contra os animais todos os dias, quando nos permitimos usá-los como a objetos inanimados, sem sensibilidade ou sentimentos. Na pecuária, seja extensiva ou intensiva, industrial ou tradicional, os animais são explorados e mortos, descartados quando considerados inúteis, não há consideração pelos seus interesses. Nos laboratórios os animais passam por sevícias ininterruptas, sendo cegados, queimados, isolados, envenenados, mutilados, manipulados, e justifica-se isso em nome da ciência e do bem-estar da humanidade. Mas que bem-estar é esse que vem às custas de sofrimento?

POR UMA QUESTÃO DE NECESSIDADE. Sendo a exploração animal desnecessária, aboli-la la torna-se, conseqüentemente, uma necessidade. Uma necessidade, inclusive, para o desenvolvimento pleno da humanidade e suas potencialidades. Aprendermos a preservar a natureza e a vida animal não é uma questão sentimental. É uma questão de justiça, como afirmei antes. E também uma necessidade prática: nossas ações predatórias comprometem a nossa existência, e a existência de muitas espécies de animais e plantas. A pecuária é nociva para o meio-ambiente: para criarmos pastos, destruímos florestas, comprometemos a existência de fauna e flora selvagem. Os rebanhos emitem gases do efeito estufa, seus dejetos poluem rios e solo. Não há como alimentar 6 bilhões de seres humanos à base de alimentos de origem animal.

POR UMA QUESTÃO DE CONSCIÊNCIA. É sintomático perceber que o ser humano, que se julga sábio, sensível, sublime, trata os animais com tamanho descaso, desrespeito, desprezo. Será que podemos mesmo aspirar justiça, liberdade, paz, enquanto somos tiranos para aqueles sobre os quais podemos exercer nosso poder? Que tipo justiça existe apenas quando somos impelidos pela lei nos códigos ou livros sagrados a agir moralmente apenas para não sermos punidos ou, em contrapartida, recebermos graças? Só poderemos viver numa sociedade livre e justa quando justiça e liberdade forem valores em si para o ser humano, e não meras moedas de troca, meios para atingir a fins egoístas, sejam esses fins materiais ou transcendentais. Esse ponto foi muito bem ressaltado pelo escritor Milan Kundera em A Insustentável Leveza do Ser, seu mais famoso romance:

A verdadeira bondade do homem só pode se manifestar com toda a pureza, com toda a liberdade, em relação àqueles que não representam nenhuma força. O verdadeiro teste moral da humanidade (o mais radical, num nível tão profundo que escapa ao nosso olhar) são as relações com aqueles que estão à nossa mercê: os animais. É aí que se produz o maior desvio do homem, derrota fundamental da qual decorrem todas as outras. (KUNDERA, Milan. A Insustentável Leveza do Ser. São Paulo: Companhia das Letras, 1999 [1984], p. 325.)

POR UMA QUESTÃO DE COERÊNCIA. Uma vez que tenhamos despertado para uma realidade, precisamos agir em conformidade com o que descobrimos. Conhecimento sem aplicação não tem qualquer valor – é mero exercício estético, soberba, “saber por saber”, egocentrismo. O conhecimento implica responsabilidade. E aí reside simultaneamente a solução e o problema. Solução porque o ser humano deve aprender a ser responsável. Responsável por seus atos, por seus semelhantes, pela sua morada. Mas ele também aprendeu a aceitar sem questionar a realidade que lhe é imposta. Acomodar-se. Nesse sentido, o governo é também uma benesse e uma maldição. Pois o ser humano se sente mais seguro tendo um governo para delegar responsabilidade e pôr a culpa.

É inquietante saber que podemos fazer algo a partir de nós mesmos, no nosso cotidiano, que muitas injustiças dependem apenas de nós para acabarem. Que a preservação do planeta também depende de nós. Que mesmo as relações interpessoais têm muito a ver com o tipo de mudança que queremos no mundo. Não adianta aspirarmos por paz, liberdade, igualdade, se não as praticamos no dia-a-dia, com nossos semelhantes: se somos autoritários, oportunistas, egoístas, aproveitadores, arrogantes, desrespeitosos, possessivos, mesquinhos, manipuladores... como esperar que haja justiça no mundo?

E isso também se refere aos animais não-humanos. Conscientes da exploração de que são vítimas, devemos refletir sobre o que podemos fazer para impedir que esse massacre continue, sob pena de nos tornarmos cúmplices.

É isso que quero fazer com estes textos. Despertar consciências para uma realidade atroz, a necessidade de mudá-la e a possibilidade concreta de, individualmente, fazermos algo para que essa mudança ocorra tão breve quanto possível.

O veganismo nos desperta, assim, para muito mais além da triste realidade da exploração animal: ele nos desperta para o poder transformador e libertário presente no ser humano, em cada indivíduo. Um poder que traz consigo a responsabilidade de agir de acordo com ele: não basta querer que as coisas mudem; é preciso mudá-las em nós mesmos, e assim o fazendo, teremos certeza que estamos contribuindo para que mudem definitivamente em toda a sociedade, em todo o planeta.

sexta-feira, 7 de dezembro de 2007

Por que Abolicionismo?


Bois confinados: mais carne em menos espaço.


Ainda na série dos textos introdutórios, quero falar mais diretamente sobre o abolicionismo, ou seja, a doutrina da libertação animal. Posteriormente, irei mencionar então, o veganismo, e então creio que estaremos todos prontos para debater questões mais específicas.

A premissa básica do abolicionismo é muito simples e inteligível para qualquer pessoa: nenhum indivíduo é propriedade de outro, todos devem ter direitos iguais à liberdade e nenhum deve ter o direito de dispor sobre a vida e a liberdade de outro indivíduo. O abolicionismo animal estende esta premissa além da espécie humana, para todos os indivíduos do mundo animal.

O motivo para isso me parece tão óbvio quanto o azul do céu. Há apenas uma explicação para um embotamento tão grande da mente que torne as pessoas cegas a essa explicação, a qual irei expor depois. Por ora, o motivo:

Todo animal é dotado de sensações e sentimentos. Eles são capazes de sentir dor e prazer. Eles são capazes de procurar, por si mesmos, aquilo que lhes proporciona bem-estar, e evitar aquilo que lhes prejudica, seja como for. O nome desse dom é SENCIÊNCIA. Todo animal dotado de sistema nervoso central o possui.





Porcos confinados em fazendas de criação intensiva. As mães amamentam seus filhos através de grades.


Possuir SENCIÊNCIA significa que, ao aprisionarmos um animal, interferirmos na sua natureza, o separarmos de seus semelhantes, o infligirmos dor desnecessária através de experimentos de laboratório, castração e maus-tratos em geral e, em última instância, o matarmos, estaremos, deliberadamente, sem uma justificativa razoável, causando sofrimento a um indivíduo.

E por que isso seria moralmente inaceitável? Por dois motivos. Primeiro porque o ser humano é um ser moral, capaz de refletir sobre as implicações de seus atos. E é um DEVER do ser humano agir de acordo com essa capacidade. Dizer que os animais não têm a mesma capacidade de reflexão ética não justifica tratá-los como objetos dos quais podemos dispor. Afinal, bebês, crianças, pessoas em coma... Também não têm ou têm de forma muito limitada a capacidade de refletir moralmente. E isso não faz com que seja justo dispor de suas vidas. O que nos leva ao segundo motivo: não existe nada na natureza – NADA – que justifique a dominação que o ser humano impõe sobre as demais espécies.



Ordenha. E o filhote?


O filhote, se for macho, em geral, vira vitela: 4 meses confinado, no escuro, antes de morrer.


O ser humano gosta de justificar sua dominação através de uma suposta superioridade. Em primeiro lugar, não há superioridade na natureza: cada espécie se basta, tem sua própria função e a ela está adaptada, todas têm um papel no equilíbrio ecológico e existem para seus próprios interesses. As diferenças existentes não significam absolutamente nada, até porque não há nada que o ser humano seja capaz de fazer que não seja feito também pelos animais que o ser humano, arrogantemente, qualifica como “irracionais”. Vejamos:

Os animais são dotados de linguagem, umas mais sofisticadas, outras menos, mas ainda assim as possuem. Mesmo animais considerados tão “primitivos” como insetos têm linguagens às vezes tão complexas que o ser humano até hoje não decifrou – é o caso dos vaga-lumes, que usam sua capacidade de refletir luz para a comunicação.

Alguns animais são capazes de construir ferramentas, como é o caso dos primatas ditos “superiores”. Construir ferramentas é produzir alterações na natureza. “Transformar a natureza” é a habilidade que define a existência de cultura.

Muitos animais são dotados de auto-consciência, ou seja, conscientes de serem um indivíduo. Isso pode ser constatado pela capacidade de se reconhecer no espelho, por exemplo. Os cientistas atribuem esta capacidade apenas aos tais primatas “superiores” e os golfinhos. Muitos defensores dos animais acreditam que muitas outras espécies de animais possuem auto-consciência, em maior ou menor grau.

Muitos animais são dotados de memória prodigiosa, e são capazes de solucionar problemas e interpretar situações. É um mecanismo básico da sobrevivência de qualquer animal: se você sobrevive a uma situação de perigo, você a irá evitar no futuro, para preservar-se. Se você vive uma situação prazerosa, você irá querer revivê-la. Um exemplo muito claro, e que novamente mostra que de forma alguma essas características se limitam a animais mais “complexos”, é como os animais aprendem a distinguir presas e plantas venenosas. O mal-estar causado pela ingestão de animais ou plantas venenosas faz com que um passarinho, por exemplo, não volte a comer daquele animal ou planta. Isso não é instinto, é aprendizado. A isso se chama raciocínio.

Muitos animais também praticam o sexo por prazer. E mesmo aquilo que Claude Lévi-Strauss achou ser o diferencial definitivo entre humanos e animais, se mostrou um equívoco: bonobos, os chimpanzés-pigmeus, também praticam o sexo frontal, olho-no-olho.

Mesmo a consciência do tempo e até a pedra final do argumento antropocêntrico, a transcendência, não são exclusivamente humanas. Elefantes, por exemplo, reconhecem as ossadas de seus antepassados, as tocam, as contemplam. Isso é uma clara demonstração de percepção da própria transitoriedade (se acharmos que a ação de defender-se do perigo for apenas instintiva...).

Por outro lado, não só muitas dessas sensações escapam a certos seres humanos – e nem por isso nos sentimos no direito de escravizá-los, maltratá-los, matá-los – como, em qualquer ser humano, nem tudo se explica pela racionalidade. Quando uma pessoa tem sua mão exposta ao fogo, a reação dela de tirar a mão para evitar a queimadura não é racional, mas instintiva. Quando ela vê fogo, entretanto, sua reação é racional, ela sabe interpretar que fogo é perigoso. O mesmo se dá com os demais animais. Assim sendo, as diferenças entre seres humanos e animais não-humanos são quantitativas, de grau, e não qualitativas, de tipo.



Galinhas poedeiras: máquinas de pôr ovos para atender à volúpia humana. Depois de um tempo, vão pra panela também...


Afirmar que as diferenças de habilidades entre seres humanos e outros animais implica em superioridade é tão absurdo quanto afirmar que pássaros, morcegos, insetos são superiores ao ser humano por serem capazes de voar sem precisar construir artefatos para isso. A única razão pela qual a habilidade de voar não é um argumento razoável para diferenciar “superiores” e “inferiores” é porque o ser humano não voa.

Mas na verdade a questão é muito mais simples que isso. Não se trata de comparar seres humanos e animais não-humanos no que se refere a determinadas características-chave. Isso só é feito para rebater os argumentos antropocêntricos. O essencial é que, mesmo que animais não possuam determinadas características por nós valorizadas – o que é verdade para certas espécies – todo animal merece ser respeitado em sua integridade física e psíquica com base na sua capacidade de experimentar dor e prazer. É IMORAL INFLIGIR DOR DESNECESSÁRIA A UM SER SENCIENTE. Simples assim.

Uma refutação freqüente a esta afirmação é, então, dizer que a natureza não é moral, que o leão come a gazela, mata os filhotes de outros leões, que a hiena devora sua presa ainda viva, etc., etc., etc. Como eu disse anteriormente, o leão, a hiena e todos os demais animais não são seres morais. E eles vivem de acordo com sua própria natureza: o leão e a hiena, como animais carnívoros, estão adaptados a esta dieta e dependem dela. Assim como o elefante e o cavalo estão adaptados à dieta herbívora. Daí, entramos até nas questões fisiológicas. Fisiologicamente o ser humano está muito mais adequado ao herbivorismo. O ser humano pode abrir mão da carne da sua dieta. Além disso, o leão e a hiena não criam, aprisionam e engordam sua presa. Na natureza, as chances são iguais. Na verdade, todos os predadores têm mais fracasso que sucesso em suas caçadas – as presas do leão têm a chance de escapar, o que é mais do que se pode dizer das vacas, porcos e outros animais confinados pelo ser humano. Enfim, a análise da fisiologia e da natureza associada aos pilares morais da humanidade mostram, claramente, que a criação de animais pelo ser humano, além de uma violação da natureza do animal, é um ato eticamente injustificado.



Cães enjaulados antes de serem comprados, como antes se comprava escravos humanos.


E o que impede o ser humano de enxergar isso? Um tipo de preconceito que afirma que o ser humano é superior aos demais animais. A este preconceito chamamos de ESPECISMO. Como tentei demonstrar brevemente, essa suposição de superioridade não tem qualquer fundamento. Exceto pelo fato de que, ora, somos humanos, e nos preocupamos mais com outros seres humanos que com outros animais. Isso é compreensível. Nós nos preocupamos mais com outros humanos, assim como nos preocupamos mais com nossos amigos que com estranhos. Assim, também, como nos preocupamos mais com nós mesmos que com nossos amigos. Isso, entretanto, não é justificativa para aprisionar, torturar e matar animais, estranhos ou amigos.
Do ponto de vista da ética, não importa nossos sentimentos por nossas vítimas, e sim o sofrimento que podemos lhes causar. Se e esse sofrimento é evitável, ele se torna moralmente errado.



Coelho vítima de testes: sofrimento ininterrupto.


Por fim, as pessoas, num laivo de “realismo” e “praticidade”, são capazes de afirmar: “mas muitas pessoas dependem da carne pra viver; a pecuária gera emprego e renda; os testes em laboratório são necessários para salvar vidas”. Tudo isso é facilmente refutável, e o será mais adiante. Por ora quero acrescentar, quanto a isso, apenas uma coisa: um dia também se afirmou que a escravidão humana era necessário para a prosperidade e o bem-estar de nosso país. A escravidão ter contribuído para a formação do Brasil não a torna justa, nem ontem, nem hoje. E isso nos leva a uma conclusão muito simples. Como disse o filósofo Tom Regan, “[Assim como] os interesses de quem se beneficia com a escravidão [humana] não deveriam ter qualquer importância na decisão de abolir as instituições que sustentam seus interesses, (...) os interesses de quem se beneficia da exploração animal não deveriam ter qualquer importância na decisão de abolir as instituições que sustentam seus interesses”.

Por isso somos abolicionistas: porque queremos que todos os animais sejam livres para buscar seu próprio bem-estar, sem a interferência indevida do ser humano. Sigamos nossas vidas e deixemos os demais animais seguirem as suas.



Você acha que só a criação moderna e industrial é cruel? Veja este porco sendo degolado numa aldeia portuguesa...


ABOLICIONISTAS: NÃO QUEREMOS JAULAS MAIORES, QUEREMOS JAULAS VAZIAS.